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Catorze passos da via sacra superando a violência

cartaz menor  2Celebrando a Campanha da Fraternidade do corrente ano, cujo tema é “Fraternidade e superação da violência”, com o lema “Vós Sois todos irmãos” (Mt 23,8), proponho seguirmos os passos de Jesus no caminho do Calvário do seguinte modo:

1ª Estação: Jesus é condenado à morte. Pilatos lava suas mãos.

A corrupção política que o Brasil e outros países vivem é assustadora. Não se pode mais confiar nem na esquerda, nem no centro e nem na direita. Da mesma forma que o inocente Jesus ficou sem chão, sem ter onde recorrer, mesmo sendo inocente, nosso povo se encontra à deriva. Está, como Cristo, de mãos atadas, sem voz e sem vez.

2ª Estação: Jesus recebe a cruz. Terá que carregar seu patíbulo como se fosse um criminoso. 

Pesada cruz pesa sobre nós com ideologias políticas destruidoras das forças morais e sociais. Na Venezuela, o povo que, até há pouco, vivia de forma confortável em geral, hoje não tem comida, nem remédio, nem casa nem nada do necessário. Só tem o direito de pôr sua pesada cruz às costas e pôr-se a caminho na fé e na esperança, migrando para países vizinhos.

3ª Estação: Jesus cai pela primeira vez. 

O hediondo crime do tráfego de drogas derruba no abismo da destruição moral e física grande parte dos jovens, com consequências drásticas nas famílias. Estão no chão. Com a cara no chão. Com o corpo cada vez mais debilitado caído por terra. O peso da iniquidade dos produtores de cocaína, crack, êxtase, maconha e outros narcóticos derruba por terra quem já se cansou da vida.

4ª Estação: Jesus encontra sua mãe. Seu olhar materno e seu rosto em lágrimas, o comovem e o auxiliam a prosseguir a via do calvário. 

Quantas famílias estão desamparadas? Quantos jovens precisam ser reerguidos pelo amor materno? Assim como os guardas naturalmente queriam afastar Maria, muitas seitas proselitistas, muitas ideologias falaciosas, como a Ideologia de Gênero, funcionam hoje como ações destruidoras dos valores inalienáveis da família, menosprezadoras da dignidade própria das mães. Obrigado, Senhor, pela presença de minha mãe, Maria Teresa, no meu caminhar vocacional, sem interferir, mas sempre orando na força da esperança.

5ª Estação: Simão Cirineu ajuda Jesus a carregar a cruz. 

Neste mundo de indiferentes, de individualistas, de ganância e de egoísmo, a figura do Cirineu nos ajuda a vencer a violência branca do descuido dos irmãos, da falta de sensibilidade para com os que sofrem. É necessário criar a cultura da solidariedade, da cordialidade, da capacidade de ajudar o irmão que padece fome, sede ou que esteja desempregado. Deus nos liberte do comodismo.

6ª Estação: Verônica enxuga o rosto de Cristo. 

O mundo de hoje tem que pedir perdão pelo ausentíssimo de socorro nos momentos difíceis dos vizinhos, e dos que estão longe. Para ver o rosto de Cristo estampado em nossa toalha, é necessário que antes nos disponhamos a oferecer de nossos panos para enxugar o suor e as lágrimas dos irmãos sofredores, por exemplo, nos corredores superlotados de nossos hospitais.

7ª Estação: Segunda queda de Jesus. 

Vendo o Senhor da bondade e da esperança, das dores e das angústias prostrado ao chão, não deixemos de visualizar tantas pessoas caídas nas prisões superlotadas, inóspitas e desumanas.

Continuaremos a rezar semana que vem.


Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

O Testemunho de Dom Célio

domcelioCerta da feliz ressureição dos que morrem no Senhor, a Igreja entregou nas mãos do Pai, a 19 de janeiro de 2018, a vida, a obra e os sofrimentos de Dom Célio de Oliveira Goulart, quarto Bispo da Diocese de São João del Rei.

Numa caminhada de pouco mais de 73 anos, tendo se consagrado a Deus indivisivelmente desde a sua juventude nos caminhos de São Francisco de Assis, abraçou a pobreza evangélica, se tornou missionário, sacerdote do Altíssimo, serviu o Pão do Céu, pregou a Palavra, guardou intacta a fé e espalhou o amor de Deus por muitos lugares. Chamado pela Mãe Igreja ao episcopado, sucedeu os Apóstolos em Leopoldina, depois em Cachoeiro do Itapemirim e, por fim em São João del Rei.

Sua nomeação para a Igreja Particular de São João del Rei, a 26 de maio de 2010, veio satisfazer sua vontade própria, como me confidenciou, à época, antes mesmo que se iniciasse o processo sucessório. Perguntei, à ocasião, se ele se sentia disposto a abraçar de cheio esta diocese com tudo o que ela representa de especial, incluindo a sua expressividade tão extraordinária em arte sacra, sobretudo na música que guarda imenso acervo da liturgia histórica e sua legítimas tradições, ele me respondeu que, embora não tivesse o dom de cantar bonito como gostaria, o que enriqueceria a liturgia, amava muito estas tradições mineiras como verdadeiros veículos de evangelização, podendo através delas chegar aos corações do povo sanjoanense, pois fora naquela histórica cidade que ele havia começado sua vida sacerdotal, tão logo fora ordenado presbítero na Ordem dos Frades Menores, em 12 de julho de 1969.

Pôde assim, como Bispo, reger aquela Igreja por mais de sete anos, e presidir tantas vezes as cerimônias de beleza sem par que acontecem nesta Diocese, sobretudo na Semana Sana e a Páscoa, além de dar apoio a todas as demais forças pastorais da Igreja local, até os últimos momentos de sua existência. Soube colocar em prática as renovações do Concilio Vaticano II, às quais amava, sem, contudo, em nada prejudicar as cerimonias históricas, artísticas e piedosas desta terra, que, com todo direito, pode ser destacada como capital da Música Sacra no Brasil. Esta foi uma das virtudes deste Pastor admirável, pois o Concílio Vaticano II não quis destruir nada, mas apenas acrescentar sem ferir, renovar sem demolir. Isto está de fato impresso na Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium, quando diz: Havendo em almas regiões...povos que têm uma tradição musical própria, a qual desempenha importante função em sua vida religiosa e social, a esta música se deem a devida estimação e o lugar conveniente, tanto para lhes formar o senso religioso, quanto para adaptar o culto à sua mentalidade (SC 119).

Frade da Província de Santa Cruz, teve sua vida marcada pela força deste símbolo. Nasceu no dia 14 de setembro, dia da Exaltação da Santa Cruz; escolheu para lema de seu episcopado “Crux Dei Virtus Est” (A Cruz é a força de Deus). Como gesto misterioso do amor divino, foi-lhe concedido experimentar a expressividade deste lema no último ano de sua vida, quando lutou na fé contra um câncer no pâncreas, e muito intensamente no último mês no leito hospitalar. Ao entrar da madrugada da terceira sexta-feira do tempo comum da liturgia cristã, dia penitencial em todo o ano, recordando a cruz redentora de Cristo, às vésperas da liturgia do Martírio de São Sebastião, o Pai o aliviou dos seus sofrimentos, chamando-o ao seu feliz convício na eternidade.

Crux Spes Nostra! Na cruz está de fato nossa esperança, pois se é sinal de loucura para os pagãos, para nós é sinal inconteste de vitória (cf I Cor 1, 23).

Descanse em paz, na presença serena do Altíssimo, ó fidelíssimo Pastor!


Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

Palavra com “P” maiúsculo

As palavras que usamos corriqueiramente podem ter efeitos diversos. É lhes possível gerar situações boas ou más. Também o tom usado para proferir termos modifica tais efeitos. As palavras apenas ditas divergem em resultados com relação às escritas. Diz o velho ditado latino: “Verba volant, scripta manent”. Há perigo em dizer e mais perigo ainda em escrever. Se as palavras ditas voam, nunca mais serão recolhidas, pois o autor dos termos proferidos, por mais que se esforce ou deseje, jamais poderá saber até onde chegou sua fala. Pior se torna a situação quando se trata de ofensa, calúnia, difamação. Sempre haverá alguém para acreditar na maledicência, ainda que não tenha o mínimo fundamento.

Um dos grandes problemas da era midiática são os “fake-news”. Espalham-se notícias falsas sem nenhum escrúpulo, põem-se palavras na boca de pessoas que nunca foram ditas por elas, comentam-se fatos não comprovados ou prejulgados com a maior facilidade, denegrindo indivíduos ou grupos, pisoteando a moral e a ética. Diante de tanto progresso tecnológico da comunicação, pergunte-se: onde mora a irresponsabilidade? Nem falemos sobre legislação totalmente desatualizada a respeito da punição a este tipo de crime que, hoje, pela velocidade e extensão das informações, agigantam ofensas e destroem moralmente pessoas inocentes.

A fé pode vir em nosso auxílio. Na interessantíssima organização da liturgia do Natal, há pouco celebrado, há três textos especiais para as missas. O primeiro é para a noite, quando se lê a narrativa do nascimento de Cristo, após a rejeição dos habitantes daquela aldeia; o segundo é para a Missa da Aurora, quando se reflete sobre a visita dos pastores, e o terceiro para a chamada Missa do Dia, cujo o tema central está na afirmação bíblica: “A Palavra se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14).


logoA Sagrada Escritura ensina que esta Palavra com “P” maiúsculo não pode ser simplesmente confundida com “vocábulo”, ou um verbete dos dicionários, nem com um enunciado de uma página, nem mesmo com o livro das Sagradas Escrituras, a Bíblia. A Palavra, segundo o trecho do evangelho citado, do chamado Prólogo de São João, é uma pessoa. O verbo encarnado no seio virginal de Maria é Cristo, é o Menino de Belém. Tal Palavra que existiu desde todos os tempos, sem princípio, é o Filho de Deus que veio da Trindade sem dela se distanciar, tornou-se pessoa humana sem deixar de ser divina. Mais tarde, Pedro vai dizer a Cristo: “A quem iremos, só Tu tens Palavra de vida eterna” (Jo 6, 68).

A Palavra de Deus tem poder e não conhece defecção. Pela sua Palavra, Ele criou todas as coisas. A narrativa da criação presente no Gênesis demonstra a força da Palavra e, entre as suas etapas, um momento especial se pode destacar na criação da luz. Dita a Palavra, as trevas já não tiveram mais poder, pois a luz foi feita. Assim como a Palavra se fez carne, a luz apareceu nas trevas. Cristo é luz, como mais tarde afirmará: “Eu sou a luz do mundo, quem me segue não andará nas trevas” (Jo 8, 12).

No texto litúrgico do dia do Natal, Palavra e Luz se identificam. A Palavra de Deus ilumina a vida das pessoas humanas, como já cantara antes o Salmo: “Tua Palavra é lâmpada para os meus pés, é luz para o meu caminho” (Sl 119,105).

Se nossas palavras do dia a dia não estão em sintonia com a grande Palavra, podem gerar danos irreparáveis. Porém, se alicerçam nela, sempre gerarão frutos de paz, justiça, caridade, harmonia, amor, bondade e jamais destruirão pessoas. Para que as palavras humanas sejam sempre produtoras do bem, deixem-se iluminar pelo Verbo Encarnado, o Salvador em todas as situações.


Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

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