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Brumadinho, até quando?

Brumadinho-Foto-UOLFaz um mês. É de cortar o coração. As imagens são impressionantes e fazem chorar. É sofrimento a céu aberto. A angústia das famílias, das pessoas, da comunidade, da cidade inteira, de um Estado e de um País, que já haviam assistido cenas parecidas, há três anos, interroga à mente: até quando? O massacre foi cruel, crudelíssimo! Há, contudo, um cenário que é invisível: o que se passa na mente e no coração de quem perdeu entes queridos, e pior, que os perdeu e os corpos não foram achados. Este drama somente os travesseiros podem perceber. A angústia fere mais depois que a imprensa foi embora, os socorristas estão longe e o silêncio invadiu a noite. Até quando? O desastre, que poderia ter sido evitado, destruiu de forma irreparável as casas das famílias, construídas com sacrifícios de muitos anos, grande parte da natureza, do rio, de mais de cem ou duzentas pessoas que não voltaram para casa e nunca mais farão este caminho. A busca hercúlea dos bombeiros, dos trabalhadores, dos voluntários na ânsia de encontrar corpos para que possam ser sepultados dignamente, religiosamente, assusta a mente dos comodistas ou derrotistas. Mas, até quando? Todos os corações sensíveis, movidos pela fé e pelo amor ao próximo, não se darão o direito de ficar parados. Ao menos um pouco cada um pode fazer. Ao imaginar que, aos poucos, as notícias cessarão, o assunto ficará cada vez mais reduzido às estreitas fronteiras do local do acidente, as soluções e as reparações que a empresa responsável demorará a cumprir, fico a pensar: até quando? Até quando as visitas humanitárias, fraternais perdurarão?

Certamente, os feridos no corpo ou na alma, derramarão lágrimas furtivas, e terão espadas de dor atravessadas na alma que poucos perceberão. Até quando? Bem-aventurados os que, após o silenciar da mídia, continuarão a ser solidários e não cessarão de agir como irmão oferecendo seus braços para ajudar e seus ombros para alguém chorar.

Impressiona à alma a programação celebrativa deste final de semana, na Paróquia de São Sebastião de Brumadinho que, nos três últimos dias reúne fiéis, do alvorecer à noite, para orar, ouvir a Palavra de Deus, comungar o Corpo do Senhor, afinal celebrar a dor e a vitória do espírito sobre o mal e a morte. É fundamental clamar a Deus, agarrar-se a ele, agradecer-lhe pela sua atenção nestes momentos que parecem não ter fim.

A presença do Núncio Apostólico, embaixador no Papa no Brasil, para a Missa deste dia 25, significará a esperança da Igreja que crê na ressurreição e superação de todo erro, eliminando afinal, a força inexorável da morte. “Onde está tua vitória, ó morte? ” (Oz 13,14)

Dia 27, representantes do episcopado mineiro se reunirão com o Governador do Estado, Romeu Zema e estudarão medidas para acudir as famílias, e ver atitudes preventivas para que não aconteçam mais desastres evitáveis, com ninguém.

Protestos e clamores invadem ruas da capital mineira, percorrem vales e colinas, chamando à atenção pela despreocupação com os seres humanos, dos que parecem visar apenas o lucro. Vale e outros. A estes, Cristo proclama novamente: “Ai de vós, ricos, porque já recebestes vossa consolação” (Lc 6,24). Virgílio grita outra vez “auri sacra fames” protestando contra a execranda fome pelo vil metal.

Até quando! Certamente esta pergunta soará como ostinato nos peitos dos que sofrem, dos que socorrem, dos que creem, dos que amam, dos que são inconformados com as injustiças e não se darão ao luxo de ficar parados diante de tragédias, vendo os que morrem, sofrendo com os que sofrem.

Ergo os olhos para o céu e rezo com todo as vísceras do meu ser: “Do abismo profundo, clamo a vós, Senhor! Escuta meu clamor. Que teus ouvidos estejam atentos ao clamor da minha prece. ”

É forçoso concluir com a vítimas do lamaçal: sei que um dia viverei na terra dos vivos e cantarei as alegrias do meu povo, louvando livremente o Senhor!


Dom Gil Antônio Moreira

Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

Mensagem do Arcebispo Dom Gil Antônio ao final da JMJ

jmjNo domingo, dia 27, chegou ao fim mais uma Jornada Mundial da Juventude, milhares de jovens de todas as nações estiveram juntos por 5 dias no Panamá em prol da mesma causa. Eles vivenciaram muitas coisas e viram o anúncio do Cardeal Kevin Farrell, sobre próxima cidade que irá receber a JMJ: Lisboa, em Portugal.

Porém, durante estes dias de graça uma tragédia aqui no Brasil comoveu a todos, o acontecido em Brumadinho (MG). Nosso arcebispo mandou seu relato a respeito desses fatos. Confira abaixo na íntegra:


"Mais uma vez constato que as Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ) são um sopro do Espírito Santo para o mundo de hoje. São milhões de jovens que a Igreja consegue reunir, de todas as partes do globo terrestre, para viverem dias de intenso encontro com Cristo, verdadeiro Retiro Espiritual!

Aqui no Panamá, um pequeno país da América Central, com apenas 4 milhões de habitantes, um país jovem de apenas 105 anos de independência, acontece este megaevento da fé católica que só pode ser obra de Deus.

A Via Sacra celebrada na sexta-feira, dia 25, foi muito intensa e profunda. Meditando com o Papa Francisco e jovens de todas as partes do mundo, nós brasileiros uníamos aos sofrimentos de Cristo os de todos os que direta ou indiretamente estão padecendo por causa do crime ecológico acontecido em Brumadinho naquele mesmo dia.

Por graça de Deus, nesta JMJ, me foram confiadas duas catequeses, uma homilia e uma mensagem ao final de uma das missas para os jovens de língua portuguesa vindos do Brasil, Portugal e países africanos lusófonos.

Esta é a 34ª versão das JMJ, criadas por São Paulo II, no ano de 1984. Visível inspiração do alto!

Deus abençoe sempre esta iniciativa católica que faz dos jovens os grandes missionários do mundo de hoje.

O tema Mariano, por desejo do Papa Francisco, foi muito inspirador: “Eis aqui a serva do Senhor, faça -se em segundo a tua palavra!"


Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

Olhar para além dos nossos limites

WhatsApp-Image-2019-01-14-at-23.19.46Movidos pela Palavra de Cristo, não podemos medir esforços para ajudar aqueles que necessitam. Nós, na Arquidiocese de Juiz de Fora, temos um empenho, uma decisão de ser “Uma Igreja sempre em Missão”. Olhar para além de seus limites. Além de ser missionária Ad intra, ou seja, dentro do território que lhe compete administrar, não podemos ficar limitados a estas estreitas fronteiras geográficas. O nosso olhar deve se estender para aqueles que necessitam ainda mais do que os nossos. Por isso, somos felizes de manter o compromisso de fazer alguma coisa pelos irmãos que vivem no Haiti.

Temos também um grande trabalho na Diocese de Óbidos, no estado do Pará. Há vários anos estamos trabalhando lá com uma paróquia, para onde enviamos dois padres e eles fazem o trabalho religioso e social que podem fazer. No Haiti, a nossa missão está iniciando, mas já com passos largos. No ano passado, foi nomeado o novo Arcebispo Metropolitano de Porto Príncipe, Dom Max Leroy Mesidor, que visitamos no dia 17 de janeiro deste ano de 2019. Ficamos muito contentes com sua simpática recepção e suas expressões de gratidão pelos nossos trabalhos missionários.

Na vez passada em que estivemos no Haiti, em julho de 2017, o Arcebispo à época era Dom Guido Poullard, que, na ocasião, estava gravemente doente, em tratamento fora do país e que veio a falecer em dezembro de 2018. Fomos atendidos pelo Vigário Geral que nos atendeu muito fraternalmente, mas não tinha como tomar decisões mais definidas pela limitação de seu cargo.

Desta vez, durante nosso encontro com o novo Arcebispo e com seu Bispo Auxiliar, Dom Sylvain Ducange, salesiano, pudemos definir avanços importantes, sobretudo no campo da cooperação pastoral. Há, inclusive, a possibilidade de enviarmos um sacerdote voluntário para passar algum tempo no Haiti e de receber, em Juiz de Fora, um sacerdote haitiano que nos ajude no intercâmbio missionário.

Estivemos no Haiti entre os dias 12 e 19 de janeiro, hospedados na casa dos nossos estimados Freis Franciscanos na Providência de Deus, onde convivemos felizes com Frei Gabriel Martins Alves e Frei Pedro Caetano da Silva. Comigo, estavam o Padre Leonardo Loures e o jovem missionário Yago Motta, membro do nosso grupo JMC (Jovens Missionários Continentais).

Em Juiz de Fora, já temos um trabalho iniciado, fazendo uma corrente de padrinhos para crianças que não têm condições de pagar escola, de comprar material escolar ou o necessário para sua higiene pessoal, para vestir ou para comer. Vários padrinhos já contribuem com a quantia de R$50,00 (cinquenta reais) por mês, que são enviados para a Congregação dos Franciscanos na Providência de Deus. Os frades, por sua vez, administram esse dinheiro com bastante lisura para atender aos irmãos pequeninos do Haiti.

Juntamente com isso, fazemos também um trabalho pastoral. As celebrações de missas, organização de catequese, e tantas outras coisas que podemos fazer no sentido da evangelização destes nossos irmãos, ensinando-lhes a Bíblia Sagrada e o catecismo da Igreja. Tudo o que nós podemos fazer, para o corpo e para a alma, para o espírito e para a mente, haveremos de fazer.

O compromisso com o Haiti é inalienável. Somos uma Igreja sempre missionária e queremos assim viver. Quem quiser e puder ajudar, procure a nossa Cúria Metropolitana de Juiz de Fora, para ver como isso pode ser feito.

Dia 19 de janeiro, partimos para o Panamá, país vizinho do Haiti, para a Jornada Mundial da Juventude, onde nos reuniremos aos quase 70 jovens que vieram de nossa Arquidiocese de Juiz de Fora. A todos, envio um grande abraço em nome da equipe que lá esteve e uma grande bênção de Deus, para que possamos viver sempre unidos no amor e na caridade.


Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

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