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A Igreja em Saída para as Periferias

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Há muito que a Igreja vem insistindo no tema da missão. Aliás, desde seu início foi assim, pois Cristo, em seu último diálogo com os discípulos, os enviou a todo o mundo para anunciar o evangelho, ensinando tudo o que lhes ensinara, e lhes deu ordem de batizar a todos os que crescem, ou seja, introduzi-los no ambiente de sua família espiritual (Cf. Mt 28, 16-20; Mc 16, 14-20). Para isso, garantiu-lhes presença sem limites: “Estarei convosco todos os dias até o fim dos séculos” (Mt 28,20).

Nos tempos atuais, após a realização do Concílio Vaticano II (1962-1965), os Papas têm destacado com tal frequência a causa da missão que, pode-se dizer, a maioria dos documentos, homilias, alocuções e outros textos, raramente não trazem referência a este imperativo eclesial.

Papa Francisco prima pelos esforços de impulsionar a Igreja para que esteja sempre em atitude de “saída” e insiste que tenha os olhos direcionados especialmente para as periferias. Sua encíclica Evangelii Gaudium (24.11.2013) é quase um compêndio missionário, destacando a alegria de servir o evangelho ao mundo de hoje, das mais variadas formas. Retomando vários textos de seus predecessores, sobretudo Paulo VI, São João Paulo II e Bento XVI, bem como documentos de Conferências Episcopais, Francisco reforça a identidade da Igreja como comunidade missionária que tem a missão como a primeira de todas as suas causas. Citando o documento de Aparecida (2007) literalmente, escreve o Papa Francisco: “Nesta linha, os Bispos latino-americanos afirmaram que ‘não podemos ficar tranquilos, em espera passiva, em nossos templos’, sendo necessário passar ‘de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária’” (EG 15).

Com certos louváveis neologismos, Francisco insiste: “Uma Igreja ‘em saída’ é a comunidade de discípulos missionários que ‘primeireiam’, que se envolvem, que acompanham, que frutificam e festejam” (EG 24). Mais adiante continua: “A Comunidade missionária experimenta que o Senhor tomou a iniciativa, precedeu-a no amor (cf. Jo 4,10), e, por isso ela sabe ir à frente, sabe tomar a iniciativa sem medo, ir ao encontro, procurar os afastados e chegar às encruzilhadas dos caminhos para convidar os excluídos”. Convida mesmo para atitudes corajosas: “Ousemos um pouco mais no tomar iniciativa!” (EG 24).

Por estas palavras inspiradas e ditas à Igreja ultimamente, através da voz de seus pastores, e sobretudo do seu Pastor Maior que é o Sucessor de Pedro, é que a Arquidiocese de Juiz de Fora envia sete missionários ao Haiti, a partir do dia 16 de julho, para um estudo básico a respeito do que ela possa fazer pelos irmãos naquele país considerado o mais pobre e mais sofrido das Américas. Com eles estarei pessoalmente acompanhado também pelo Bispo Diocesano de Leopoldina.

Com a intenção de compartilhar com o leitor a respeito da realidade que pretendemos contemplar presencialmente, a fim de descobrir como ajudar, passo alguns dados da região a ser visitada.

O Haiti é um país situado no Caribe, numa ponta da Ilha Hispaniola, no grande arquipélago das Antilhas, contando hoje com população de cerca de onze milhões de habitantes. Sua capital é Porto Príncipe, que agrupa cerca de três milhões de pessoas. O regime político é a República, mas, há anos, sofre sucessivas crises, ao ponto de um grupo de nações, entre as quais o Brasil, se fazerem presentes em socorro da população para garantir-lhe a paz e a segurança. Esteve ali um contingente de servidores militares de Juiz de Fora. Semana passada, o Exército Brasileiro iniciou seu retorno, tendo já cumprido gloriosamente sua missão de paz.

A maioria da população é constituída de negros, afrodescendentes, oriundos do regime escravocrata ali predominante no passado. Foi o primeiro país da América Latina a abolir a escravatura e o segundo a proclamar a independência, o que se deu no ano de 1804, através de uma revolta dos escravos. Abrigou Simão Bolívar, em 1815, com a condição de que ele impusesse a libertação dos escravos nos países que conseguisse levar à independência política. Antiga colônia da França, é o único país da América latina cujo idioma oficial é o francês, somando-se ao Canadá, na América do Norte.

O País tem sido atingido por dolorosas catástrofes naturais, como o terrível sismo de 12 de janeiro de 2010, que matou mais de trezentas mil pessoas, tendo destruído o Palácio Presidencial, a Catedral de Porto Príncipe, oitenta por cento das casas, prédios públicos e comerciais. Neste terremoto, morreu a nossa Dra. Zilda Arns, que ali estava para implantar a Pastoral da Criança. Também faleceu, na ocasião, o Arcebispo Dom Joseph Serge Miot. Ano passado, o país foi vítima do furação Matthew, com muitíssimas vítimas.

O atual Arcebispo de Porto Príncipe é Dom Guirre Poulard, nascido em 1942, tendo, portanto atualmente, 75 anos de idade, aguardando a emeritude.

A Arquidiocese de Porto Príncipe foi criada como Diocese, em 03 de outubro de 1861 e hoje conta com quatro dioceses sufragâneas. Em todo o Haiti, há apenas duas Províncias Eclesiásticas, a de Porto Príncipe e a outra, no norte do País, em cabo Haitiano. Pela primeira vez, o Haiti conta com um Cardeal, que é Sua Eminência Chibly Langois, Bispo de Les Cayes, criado no consistório de 2014.

Sendo o principal objetivo da missão levar Cristo às pessoas, a Igreja tem em Maria o modelo mais eloquente de missionariedade. Em sintonia com Papa Francisco, rezamos ao partir para o Haiti: “Maria, Mãe do Evangelho vivente, manancial de alegria para os pequeninos, rogai por nós!”

 

Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

 

De Juiz de Fora ao Haiti

resgate-por-amor-jesus-ajudando-um-menino-1a97dO que mais dignifica a pessoa humana é o bem que possa fazer ao outro. O altruísmo nunca diminui, mas aumenta a satisfação da alma. Engana-se quem pensa que o enriquecer de matéria, de ouro e prata, egoisticamente, possa trazer paz à mente, serenidade ao coração, tranquilidade ao espírito. Se as coisas materiais são necessárias ao legítimo conforto que todos devem ter, ao progresso dos povos, o excesso, a ganância, a avareza são elementos enganosos que acabam se tornando venenos para a vida.

Cristo, ao ensinar a seus discípulos sobre a salvação eterna, exclamou: Vinde, benditos de meu Pai... pois tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber, era forasteiro e me acolhestes, estava nu e me vestistes, doente e me socorrestes, na prisão e fostes me visitar... (Mt 25, 34-36). São Tiago ensinou que a fé, se não se traduz em obras, por si só, é morta (Tg 2,17).

Os cristãos, desde o princípio, entenderam e praticaram esta verdade que dignifica e salva. A partir de experiências anteriores, já no século 3, havia em Roma uma organização caritativa, presidida pelo bispo local, o Papa Fabiano, que dava socorro a cerca de 500 famílias empobrecidas. A idade média foi marcada, toda ela, por iniciativas dos cristãos e dos organismos de igreja, pela força da caridade, unindo sempre a fé e a missão à pratica do amor fraterno. Os mosteiros funcionavam como verdadeiros centros caritativos, onde os pobres procuravam alimentos, os doentes, remédios, os refugiados, acolhimento, os desabrigados, acolhida e até os órfãos abandonados às portas dos claustros eram adotados e pelos monges recebiam educação.

Muitos são os santos que ganharam a honra dos altares, por terem praticado extraordinariamente a caridade. Entre tantos, pode-se recordar os nomes de São Martinho Tours (séc. 4); São Bento e Santa Escolástica (séc. 6), Santa Edwiges (séc. 12), São Francisco de Assis (séc. 13), Santa Isabel da Hungria (séc 13), Santa Isabel de Portugal (séc. 14), São João de Deus e São Camilo de Leles (séc. 16), São Vicente de Paulo e Santa Luiza de Marilac (séc. 17), e as mais recentes e conhecidas, Santa Teresa de Calcutá e Beata Irmã Dulce dos Pobres (séc. 20).

Santo Antônio de Pádua (séc. 13) praticou a solidariedade cristã e pregou forte sobre o dever de acudir aos mais pobres, afirmando: “A palavra é viva quando falam as obras. Cessem, pois, as palavras e falem as obras. Estamos cheios de palavras, mas vazios de obras!”

O Papa Francisco, movido pela Palavra de Cristo, tem insistido para que a Igreja seja cada vez mais missionária, voltada para as periferias, onde se encontram os mais sofridos. Deseja o Sucessor de Pedro que a Igreja esteja sempre em atitude de saída. Aos jovens, no Rio de Janeiro, em 2013, ele ordenou paternalmente: Ide, sem medo, para servir.

Movida por estes pensamentos, a Arquidiocese de Juiz de Fora pretende dar novos passos nos caminhos da missão e de seu compromisso com os empobrecidos e sofredores em geral. Lançando o olhar para o Haiti, sendo este o país mais pobre da América Latina e do Caribe. Para lá partimos no próximo dia 16 de julho, com mais cinco jovens e um casal, lá permanecendo alguns dias, com a finalidade de fazer um estudo e ver a viabilidade de estabelecer um compromisso missionário com aquela gente que, às vezes, chega a comer biscoitos de terra, para matar a fome.

Com a graça de Deus, nossa Igreja Particular de Juiz de Fora, através dos Jovens Missionários Continentais e outros grupos ou pessoas, poderá dar este novo passo na sua aspiração de ser uma Igreja Sempre Missionária, pobre com os pobres, em contínuo processo de saída, como desejou Cristo ao final de sua missão: ide por todo mundo, a todos anunciai o evangelho (Mc 16,15).

 

Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

 

A morte do Monsenhor

pe vianaHavia terminado de celebrar a Santa Missa. Eram dezoito horas. Tomou seu carro e partia para outra comunidade, onde elevaria novamente o Cálice da Salvação, consagraria o Pão da Vida e serviria novamente a Palavra aos fiéis. Com ele estava Dona Ilda Maria Nader Araújo, auxiliar nos trabalhos paroquiais, boa mãe de família, que veio a óbito às 22h30 no HPS, em Juiz de Fora.

Ao adentrar na pista asfáltica, o Padre não percorrera dois quilômetros quando seu carro foi violentamente atingido por outro que invadira a sua pista, guiado por motorista alcoolizado, segundo laudo policial, causando a morte do sacerdote e da fiel colaboradora.

Para além da dor terrível que o fato causou em nossa alma, no coração de todos os seus irmãos sacerdotes e da comunidade paroquial de Nossa Senhora das Estradas, a que servia ultimamente, umedecidos todos pelas lágrimas, algumas coincidências chamam à atenção de quem crê, o que vem sublimar o sofrimento e minimizar a dor. Para os que creem, as palavras tomam sempre novo sentido nos momentos certos, nos lugares certos, sobretudo nos acontecimentos incertos da vida. Deus é infinito em misericórdia!

Monsenhor Antônio Cornélio Viana, tendo sido ordenado sacerdote em 20 de dezembro de 1969, nos primeiros anos serviu a Deus na cidade de Trindade-GO, onde liderou a construção de grande parte do Santuário do Divino Pai Eterno, hoje famoso pela atuação de Padre Robson Oliveira Pereira, CSsR. Por mística coincidência, seu passamento se deu no sábado, aos 10 de junho à tarde, quando a Igreja já celebrava o Domingo da Santíssima Trindade, sendo esta a última liturgia que presidiu.

Na primeira leitura, havia ouvido, do Livro do Êxodo, as últimas palavras do texto litúrgico: ...acolhe-nos como propriedade tua (Ex 34,9). Ao Salmo, cantara ao Deus Altíssimo: Sede bendito no celeste firmamento (Dn 3).

Tendo sua vida marcada pela serenidade no relacionamento com todos, com manifesto dom de solucionar conflitos com maestria e contínuo sucesso, concluía a sua existência terrena ouvindo na segunda leitura os termos paulinos ditos aos Coríntios: ...encojai-vos, cultivai a concórdia, vivei em paz... (I Cor 13, 11). Leu no Evangelho do dia: Deus amou tanto o mundo, que deu seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna (Jo 3, 16).

Quem pode duvidar que estas palavras tenham sentido exato para o momento da partida de alguém que ofereceu a sua vida para proclamar a fé, para orar incessantemente, para semear a paz, para servir unicamente a Deus, superando desafios e problemas, para anunciar a ressurreição como fim último de nossa existência, para servir a Cristo, como discípulo, pregando a Palavra, celebrando a Eucaristia, fazendo o bem a todos?

Quem, movido pela fé, não enxergará sinal do amor de Deus, ao chamá-lo na ocasião em que as comunidades estavam celebrando os festejos de Santo Antônio, do qual recebeu o nome na Pia Batismal?

Quem deixará de associar seu passamento, provocado por pessoa dependente de álcool, aos seus contínuos esforços em favor da recuperação de jovens dominados pelas drogas, e sobretudo com seu interesse e efetiva participação na instalação de duas Fazendas da Esperança na Arquidiocese de Juiz de Fora?

Quem não encontrará o amor de Deus por esta alma que soube se esforçar para ultrapassar barreiras, para erguer-se de quedas, para santificar-se no correr da vida, mas nunca abandonar a Congregação do Santíssimo Redentor, vindo a ter sua última morada em jazigo de necrópole cuidada pela referida Congregação?

De minha parte, cheio de admiração e gratidão, entrego nas mãos de Deus o corpo e a alma deste santo homem, com certeza de que, enquanto esteve ao meu lado com várias funções eclesiais, foi um sacerdote exemplar na dedicação pastoral, na humildade da obediência (ele nunca recusou nem questionou nenhuma nomeação) e nunca exerceu qualquer missão, por mais simples que fosse, com tristeza ou má vontade.

Tendo sido Vigário Geral desta Igreja Particular por 13 anos, Pároco da Catedral Metropolitana por igual período, renunciou a estes cargos por desejar trabalho mais humilde. Porém, não pudemos dispensá-lo das funções de Ecônomo Arquidiocesano, o que exerceu com lisura e competência até o seu último dia entre nós.

Nascido em Carvalhos-MG, aos 5 de maio de 1937, completou seus oitenta anos no mês anterior, ocasião em que afirmara que estava feliz, pois não possuía mais nenhuma propriedade e que já se encontrava com sua “malinha pronta” (sic) para quando o Senhor o chamasse.

Às Missas de 7º dia, celebradas na sua Paróquia de Igrejinha e na Catedral Metropolitana, um grande número de fiéis compareceu comovidos e plenos de gratidão. Um grande painel com sua foto, na Paróquia de Nossa Senhora das Estradas, colocado ao lado do altar, parecia resumir sua pregação: “foi-se o missionário, continua a missão”!


Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

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