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Precisamos falar dela

O ano que terminou não será esquecido, foi o “ano da Covid-19”. Nele nos despedimos de muitas vidas, ceifadas pela pandemia. Dizia um filósofo que qualquer adeus tem sabor de morte (A. Schopenhauer). Nossa existência neste tempo, mais que nunca, está marcada pelas despedidas e pela morte.

Morte é assunto “tabu” em nossa cultura, desfaz qualquer roda de conversa. Precisamos, porém, falar do morrer e do luto, este último, durante a pandemia, não está sendo possível realizar como se deveria, mas que, assim como a própria morte, faz parte da vida. Como indicava o escritor G. Lapouge, “desde a infância da humanidade, os funerais são um dos sinais que separam os animais dos homens”.

Nossa sociedade censura a morte silenciando sobre ela. Para o homem moderno com a tecnologia avançada, inteligência artificial, a morte deve ser a grande ausente. É permitido somente ao homem pré-moderno falar da morte como um evento pessoal. Contudo, os meios de comunicação de massa somente falam da morte como espetáculo, algo que atinge os outros, os estranhos e não a mim.

A morte é censurada por estragar o projeto hedonista de prazer ilimitado e a necessidade de felicidade absoluta. O silêncio sobre a morte se faz porque ela, agora, está dessacralizada, não acontece na presença das outras pessoas. Não tem papel social, é algo pessoal que deve se passar na esfera privada. Enfim, a negação da morte é fruto da euforia da técnica na sociedade atual, técnica que resolve todos os problemas… menos este.

A tentativa, porém, de negar e esconder a morte não obtém sucesso. A pandemia trouxe à tona sua dura realidade. Para qualquer pessoa individualmente, ela continua sendo ameaça, mesmo quando inconfessável. A crise sanitária atual nos coloca diante da morte. Vamos compreendendo nossa finitude, coletiva e pessoal. É dramático, desagradável, mas necessário falar da morte e do morrer, do humano sofrer e do sepultamento dos mortos, com a dignidade que merecem.

Os ritos profanos e religiosos do corpo presente, que duravam em média 24 horas e que se inserem no dever de honrar os mortos e sepultá-los, já não estão podendo ser celebrados. Nos velórios ocorrem momentos decisivos para os familiares processarem o luto. Enterrar os mortos com dignidade é agradecer a vida que tiveram entre nós. É um dever e uma honra.

A falta de celebrar o luto é prejudicial às pessoas. Ver o corpo do falecido é de fundamental importância para o trabalho psicológico do luto. Assim, se incorpora a imagem do morto à memória dele vivo, integrando nos que ficam, a completude daquela vida. A lembrança do defunto quando vivo sem a lembrança dele morto, faz tudo parecer absurdo, irreal. Fica um vazio, como de algo inacabado. A energia afetiva de cada um se revolta contra esta realidade absurda. Para a realização do trabalho interior do luto é fundamental que o inconsciente e o consciente possam contar com a imagem do morto.

Para muitos o velório e as exéquias não servem para nada. É tempo perdido de jogar conversa fora e atrasar o enterro. Atrapalha o ritmo normal das coisas. Se o tempo perdido, excepcionalmente por alguns, na celebração das exéquias já parece absurdo, o que diriam do tempo consagrado a este serviço pelos sacerdotes e ministros das exéquias? Neste tempo de pandemia os padres e ministros da Igreja Católica tem prestado um grande conforto às famílias, muitos se arriscando para orar e “encomendar” os mortos, um derradeiro conforto dado pela fé, diante da perda irreparável.

Se numa sociedade do “descartável”, como a chama o papa Francisco, os idosos e doentes devem ser descartáveis, que se dirá dos mortos? Do modo como caminhamos, Deus nos livre, mas se chegará à cremação para os corpos dos ricos e o aterro sanitário para os pobres. É preciso respeitar os mortos! Os cemitérios às vezes mal cuidados, assaltados, parecem rodoviárias com bares, lanchonetes, circulação intensa e salas inadequadas com acústica imprópria para celebrações.

Na fé cristã sabe-se que a vida não é tirada, mas transformada, pois, não morremos, entramos na vida definitiva. Somente saberemos viver bem se soubermos encarar a morte de frente, como Jesus Cristo o fez. Morrendo na cruz ele destruiu a morte e deu-nos a vida que dura para sempre. Ele mesmo disse: “Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica só. Mas se morrer, produz muito fruto” (Jo 12, 24).


Dom Pedro Carlos Cipollini
Bispo de Santo André (SP)

Viver intensamente o seguimento de Cristo!

seguir-a-jesusIniciamos mais um novo tempo Comum, neste ano dedicado ao estudo do Evangelho de São Marcos. Esse tempo vai até a quarta-feira de cinzas, quando faremos uma pausa para a Quaresma e a Páscoa. A liturgia do 2º Domingo do Tempo Comum do tempo chamado B propõe-nos uma reflexão sobre a disponibilidade para acolher os desafios de Deus e para seguir Jesus.

A primeira leitura (1Sm 3,3-10.19) apresenta-nos a história do chamamento de Samuel. O autor desta reflexão deixa claro que o chamamento é sempre uma iniciativa de Deus, o qual vem ao encontro do homem e chama-o pelo nome. Ao homem é pedido que se coloque numa atitude de total disponibilidade para escutar a voz e os desafios de Deus. Samuel foi sacerdote, profeta e juiz, sendo uma das figuras mais expressivas do Antigo Testamento. Ainda jovem, é vocacionado para o serviço do Senhor. Depois de várias tentativas, poe-se à sua disposição: Fala, que teu servo escuta. A vocação pode ser vista como um processo: aos poucos a pessoa vai descobrindo a vontade de Deus a respeito da sua vida. É importante estarmos atentos aos apelos que Deus continuamente nos faz.

O Evangelho (Jo 1,35-42) descreve o encontro de Jesus com os seus primeiros discípulos. Quem é “discípulo” de Jesus? Quem pode integrar a comunidade de Jesus? Na perspectiva de João, o discípulo é aquele que é capaz de reconhecer no Cristo que passa o Messias libertador, que está disponível para seguir Jesus no caminho do amor e da entrega, que aceita o convite de Jesus para entrar na sua casa e para viver em comunhão com Ele, que é capaz de testemunhar Jesus e de anunciá-l’O aos outros irmãos. João Batista anuncia a chegada do Messias, o Cordeiro de Deus. Diante desse anúncio, alguns dos discípulos de João Batista passam a seguir Jesus. O testemunho e o convite desses seguidores atraem outros, dispostos a abandonar tudo para seguir o Mestre. O testemunho do cristão é fundamental para que outras pessoas se disponham a trilhar o mesmo caminho. É necessário sair de si mesmo e ir ver onde mora o Mestre, fazer experiência com ele e permanecer com Ele na missão.

Na segunda leitura (1Cor 6,13-15.17-20), São Paulo convida os cristãos de Corinto a viverem de forma coerente com o chamamento que Deus lhes fez. No batizado que vive em comunhão com Cristo deve manifestar-se sempre a vida nova de Deus. Aplicado ao domínio da vivência da sexualidade – um dos campos onde as falhas dos cristãos de Corinto eram mais notórias – isto significa que certas atitudes e hábitos desordenados devem ser totalmente banidos da vida do cristão. São Paulo alerta sobre o valor de cada pessoa humana. Fomos criados à imagem e semelhança de Deus e constituídos templos do Espírito Santo. O autor apresenta a beleza, a importância e o respeito que devemos ter para com o corpo humano, nosso e dos outros.

Vivamos, intensamente, neste ano o seguimento de Cristo como seus discípulos convidados a permanecer com o Senhor, conhecer a sua essência e fazer nossas as suas opções. A experiência profunda da escuta da Palavra de Deus leva o batizado a permanecer com o Mestre. Façamos esta experiência e santifiquemos os irmãos e a comunidade eclesial com nosso testemunho!


Dom Eurico dos Santos Veloso
Arcebispo Emérito de Juiz de Fora (MG)

Férias com lucidez e cuidado

Cuidado-de-siEste ano que iniciamos continua no ritmo anterior, onde o tempo tinha se dissociado do espaço alterando rotinas e a própria convivência familiar e social. O que os romanos diferenciavam com limites bem precisos, o negócio (trabalho) e o ócio (lazer, tempo livre), ficou, pela pandemia, descontínuo e interrompido; a casa virou home office e o trabalho se descentralizou e instituiu novos turnos e rotinas.

Nesta conjuntura ainda presente, as férias também acontecem em cenários (os mesmos que muitos frequentaram durante o ano) ou praias e sítios próximos que oferecem descanso. Mas, o próprio repouso foi alterado por calendários ainda abertos, as incertezas que pairam: ensino semi presencial ou on line, trabalho de meio turno ou turno inteiro, sem comentar a dura situação dos que estão desempregados.

Por isso, o foco das férias deverá ser o resgate da lucidez, da paz interior, da recuperação de perdas e feridas, para continuar vivendo em equilibrio. Será necessário empreender viagens interiores, visitar e curar nosso imaginário, investir na ecologia interna pacificando a nossa mente, fortalecer a resiliência e a paciência e ampliar os canais de comunicação com a família e com os amigos.

Sem olvidar, é claro, das disciplinas do cuidado. Para além do trabalho de superação da estafa e das descompensações interiores, a máscara é nossa proteção em todos os lugares externos. Não aglomerar-se ou permanecer em lugares fechados e pouco ventilados. Repor as vitaminas, sais minerais, adotar uma alimentação mais saudável, pois o alimento é o melhor remédio. Trabalhar a respiração consciente, pois nela está a vida, limpar os pulmões de tudo que seja tóxico.

Mexer-se, alongar-se, caminhar sempre que possível, e, o que é mais importante, privilegiar momentos fortes de silêncio interior, de autoconhecimento, na meditação para abrir estrada para Deus, aprendendo a contemplá-lo e escutá-lo. E, finalmente, seja grato pela vida, pela liberdade, por poder respirar e porque você é um dom e uma dádiva de Deus. Muita paz, amor e saúde nas suas férias!


Dom Roberto Francisco Ferreria Paz
Bispo de Campos (RJ)

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