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Palavra com “P” maiúsculo

As palavras que usamos corriqueiramente podem ter efeitos diversos. É lhes possível gerar situações boas ou más. Também o tom usado para proferir termos modifica tais efeitos. As palavras apenas ditas divergem em resultados com relação às escritas. Diz o velho ditado latino: “Verba volant, scripta manent”. Há perigo em dizer e mais perigo ainda em escrever. Se as palavras ditas voam, nunca mais serão recolhidas, pois o autor dos termos proferidos, por mais que se esforce ou deseje, jamais poderá saber até onde chegou sua fala. Pior se torna a situação quando se trata de ofensa, calúnia, difamação. Sempre haverá alguém para acreditar na maledicência, ainda que não tenha o mínimo fundamento.

Um dos grandes problemas da era midiática são os “fake-news”. Espalham-se notícias falsas sem nenhum escrúpulo, põem-se palavras na boca de pessoas que nunca foram ditas por elas, comentam-se fatos não comprovados ou prejulgados com a maior facilidade, denegrindo indivíduos ou grupos, pisoteando a moral e a ética. Diante de tanto progresso tecnológico da comunicação, pergunte-se: onde mora a irresponsabilidade? Nem falemos sobre legislação totalmente desatualizada a respeito da punição a este tipo de crime que, hoje, pela velocidade e extensão das informações, agigantam ofensas e destroem moralmente pessoas inocentes.

A fé pode vir em nosso auxílio. Na interessantíssima organização da liturgia do Natal, há pouco celebrado, há três textos especiais para as missas. O primeiro é para a noite, quando se lê a narrativa do nascimento de Cristo, após a rejeição dos habitantes daquela aldeia; o segundo é para a Missa da Aurora, quando se reflete sobre a visita dos pastores, e o terceiro para a chamada Missa do Dia, cujo o tema central está na afirmação bíblica: “A Palavra se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14).


logoA Sagrada Escritura ensina que esta Palavra com “P” maiúsculo não pode ser simplesmente confundida com “vocábulo”, ou um verbete dos dicionários, nem com um enunciado de uma página, nem mesmo com o livro das Sagradas Escrituras, a Bíblia. A Palavra, segundo o trecho do evangelho citado, do chamado Prólogo de São João, é uma pessoa. O verbo encarnado no seio virginal de Maria é Cristo, é o Menino de Belém. Tal Palavra que existiu desde todos os tempos, sem princípio, é o Filho de Deus que veio da Trindade sem dela se distanciar, tornou-se pessoa humana sem deixar de ser divina. Mais tarde, Pedro vai dizer a Cristo: “A quem iremos, só Tu tens Palavra de vida eterna” (Jo 6, 68).

A Palavra de Deus tem poder e não conhece defecção. Pela sua Palavra, Ele criou todas as coisas. A narrativa da criação presente no Gênesis demonstra a força da Palavra e, entre as suas etapas, um momento especial se pode destacar na criação da luz. Dita a Palavra, as trevas já não tiveram mais poder, pois a luz foi feita. Assim como a Palavra se fez carne, a luz apareceu nas trevas. Cristo é luz, como mais tarde afirmará: “Eu sou a luz do mundo, quem me segue não andará nas trevas” (Jo 8, 12).

No texto litúrgico do dia do Natal, Palavra e Luz se identificam. A Palavra de Deus ilumina a vida das pessoas humanas, como já cantara antes o Salmo: “Tua Palavra é lâmpada para os meus pés, é luz para o meu caminho” (Sl 119,105).

Se nossas palavras do dia a dia não estão em sintonia com a grande Palavra, podem gerar danos irreparáveis. Porém, se alicerçam nela, sempre gerarão frutos de paz, justiça, caridade, harmonia, amor, bondade e jamais destruirão pessoas. Para que as palavras humanas sejam sempre produtoras do bem, deixem-se iluminar pelo Verbo Encarnado, o Salvador em todas as situações.


Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

Ano Novo complicado, mas iluminado pelo Natal

maxresdefaultComo almejar um Feliz Ano Novo numa situação política como a brasileira, onde tudo parece continuar sem solução? Como dizer boas festas, num ambiente tão funesto com tanta violência, corrupção e enganos como o que estamos experimentando hoje em dia? Diante de um mundo tão agressivo à fé, tão marcado por secularismo, contraditório em seus termos, que ao mesmo tempo prega o direito à diversidade e nega o direito de ser fiel aos princípios religiosos, formular votos de Bom Ano é um desafio. Não há dúvida que somente a fé pode vir em nosso socorro. Ela, segundo a palavra do Mestre de Nazaré, é capaz de remover montanhas.

No Natal, celebramos a consoladora realidade de Deus que se faz pequeno, sendo infinitamente grande; se faz homem, sendo absoluto Deus! O que o orbe inteiro não pode conter, acomoda-se no reduzido espaço do seio de Maria. O que o mundo não é capaz de imaginar, penetra a alma humana com esplendor de santidade que não conhece limites e com a efusão de graças que a mente humana não pode calcular. Deus se faz homem, sem deixar de ser Deus e a humanidade do Menino de Belém é divinizada, sem deixar de ser terrena. Explica-nos São Leão Magno, um dos maiores Papas da história (440-461), que esse estupendo milagre não causou a Deus nenhuma diminuição em sua divindade e nem resultou em nenhuma destruição à humanidade de Jesus. Só Deus pode modificar, desta maneira, as condições e leis da natureza, pois, em geral, o que é maior não cabe em espaço menor, nem o que é menor suporta o peso do que é maior. O forte, em geral, vence o mais fraco, e o rico, em geral, é mais favorecido que o empobrecido. Mas aqui, trata-se de coisa divina, com o poder de Deus que do nada tudo criou, e com o pouco tudo deseja salvar.

O que seria mesmo salvar? Que significado tem este vocábulo com espaço tão especial nas Sagradas Escrituras? Salvar é tirar alguém do perigo, é afastar o frágil da derrota, é devolver o ânimo ao que perdeu a esperança, é levantar o que está abatido, é reacender a fé no coração desiludido, é dar força e coragem ao que se sente impotente diante de agressões, de incompreensões, de correntes contrárias ao que sempre creu, aos ataques à fé, à moral, à virtude. Salvar é resgatar alguém do poder do mal, da força iníqua do pecado, é dar o céu àquele que o perdera e tem certeza de que não o merece, mas o deseja. Salvar para a eternidade é um ato supremo de amor só possível a Deus perfeitíssimo em misericórdia, sabedoria, perdão e amor.

Naquela noite santa de Belém, as coisas se invertem do comum, do corriqueiro e os fatos ganham contornos extraordinários, a fim de que a raça humana compreendesse que Deus é todo poderoso e age por extremo de amor. Como afirmou Thomas Merton, “Hoje, Cristo, a Palavra eterna do Pai, que estava no princípio com o Pai, em quem todas as coisas foram feitas, no qual todas subsistem, penetra no mundo criado por ele, para recuperar as almas esquecidas de sua identidade” (Thomas Merton, in Tempo e Liturgia).

A esperança renasce quando se tem certeza de que o Menino de Belém insiste em continuar a nascer em nossos corações, em nossos lares, em nossas comunidades, em nosso povo a cada dia. Somente nós mesmos podemos decidir se o permitiremos. Eis a nossa esperança. Feliz Ano Novo!

Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

Natal: serviço, ternura, missão

DSC07866 1O anúncio celeste de Gabriel, o Arcanjo de Deus, a Maria encheu-a de alegria e esperança, inebriou sua alma do amor que vem do alto e, de imediato, a despertou para o serviço ao próximo. Seus pensamentos se voltaram para Isabel, sua parenta, que também fora agraciada por Deus, concebendo filho na velhice. Não seria fácil enfrentar os cem quilômetros que separam Nazaré e as cercanias de Jerusalém, onde vivia a prima idosa com o esposo Zacarias. Porém, ao subir a colina de Arim Karen, a Virgem de Nazaré ouve voz vibrante de saudação: “Bendita és tu entre as mulheres! Como pode vir a mim a Mãe do meu Senhor!” (Cfr. Lc 1, 42-45). Duas mães se abraçam com a ternura da fé e a certeza de que “para Deus nada é impossível” (Lc 1, 37).

Sobre esta viagem de desprendimento e amor fraterno que faz Maria, o Papa Francisco, em sua homilia, em Cuba, no ano de 2015, refletiu: “Geração após geração, dia após dia, somos convidados a renovar a nossa fé. Somos convidados a viver a revolução da ternura, como Maria, Mãe da Caridade. Somos convidados a ‘sair de casa’, a ter olhos e o coração abertos aos outros”. E mais adiante, diz: “Como Maria, Mãe da Caridade, queremos ser Igreja que sai de casa, que sai de seus templos, que sai de suas sacristias, para acompanhar a vida, sustentar a esperança, ser sinal de unidade de um povo nobre e digno”.

As palavras do Papa ditas num país comunista que cerceia a liberdade religiosa e as expressões natas de fé têm, certamente, especial sentido. Medidas opressoras contra o direito de crer, confinando fiéis no silêncio dos templos, são contraditórias diante de um pretenso programa igualitário. Nenhum poder humano tem o direito de impedir o povo de praticar sua fé e realizar as obras que da fé decorrem. O Papa deseja, além disso, demonstrar a todo o mundo, que, além das liturgias e das legítimas expressões devocionais, a vida de quem crê em Cristo não se limita às quatro paredes das igrejas. Jesus nasceu na gruta santa de Belém, frequentou a Sinagoga de Nazaré, fez peregrinações ao Templo de Jerusalém, e também viveu missionariamente nos caminhos da Galileia e da Judeia espalhando o amor, o perdão, a paz. Sobre ele foi escrito: “passou a vida fazendo o bem” (Cfr. Atos 10, 38).

Outra viagem de Maria, dessa vez com José, seu casto esposo, quando tiveram que migrar para o Egito com o fim de defender o recém-nascido contra a violência dos poderosos cegos pelo poder, nos faz refletir. Quantas vezes teremos de empreender meios, ainda que nos obriguem a sair da nossa zona de conforto, para defender os princípios deixados pelo Filho de Deus em favor da vida, da dignidade e das necessidades da pessoa humana?

Estamos sempre a caminho. A vida é dinâmica. A força da fé, a robustez da oração, o alimento dos sacramentos tomados entre as paredes sagradas nos dão coragem e alegria no desenrolar de nossas rotas, levando-nos sempre ao encontro do Senhor que vem. Os exemplos nos impelem. Em Maria pode se ver a força da fé capaz de mudar situações penosas em sublimidade que salva, como escreveu também Francisco: “Maria é aquela que sabe transformar um curral de animais em Casa de Jesus, com pobres paninhos e uma montanha de ternura” (EG 286, 2013).

O mesmo Francisco, a 8 de dezembro de 2014, rezou à Mãe do Senhor, nos seguintes termos: “Neste tempo que nos conduz à festa do Natal de Jesus, ensina-nos a ir contracorrente: a despojar-nos, a abaixar-nos, a doarmo-nos, a ouvir, a fazer silêncio, a descentralizar-nos de nós mesmos, para dar espaço à beleza de Deus, fonte da verdadeira alegria”.

Feliz Natal!


Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

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