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Vida Monástica, Eloquência do Silêncio e Alicerce da Igreja

A vida contemplativa é um dos maiores dons que Deus tem dado à Igreja. Nela o silêncio fala. Através dele se pode escutar a Deus, ouvir seus segredos de amor incondicional. No mundo tão barulhento da atualidade, encontra-se nos mosteiros o oásis da paz, frente às frustrações mundanas, o ensurdecedor barulho das coisas frívolas e a aridez das coisas materiais.

À entrega total e indivisível a Deus, pelos votos da Obediência, Pobreza e Castidade, diariamente renovados no silêncio da alma, corresponde também um natural desafio para enfrentar as forças negativas do egoísmo, do egocentrismo, da vaidade, do orgulho, dos desânimos e de tantas outras situações desafiadoras.

O lema Ora et Labora (Reze e Trabalhe) de São Bento de Núrcia (480-547), considerado Pai dos Monges do Ocidente, imprime no coração dos seus filhos e filhas que vão se multiplicando na história desde aquele século 5º, o sentimento de que tudo o que fazem é para Deus e só para Deus. O pensamento prossegue ao se ler na Regra Monástica a expressão Christo nihil praeponere (Nada se anteponha a Cristo), utilizada antes por São Cipriano (250-304) e Santo Agostinho (354-430), mas revalorizada por São Bento, impulsionando os homens e as mulheres dos claustros a não descuidarem deste princípio diante de tudo o que devem realizar. Contemplar o rosto de Cristo antes de qualquer decisão é sinônimo de segurança e antecipação da vitória, pois quem segue a Cristo nunca erra o caminho, nunca foge à verdade e experimenta a vida que nem a morte destrói.

Nos umbrais da entrada da Arquiabadia do Monte Cassino, na Itália, onde se encontram os restos mortais de São Bento e de sua irmã gêmea, também monja, Santa Escolástica, se lê a máxima “Succisa Virecit” (cortada reverdece). O dístico latino traduz a certeza do monge e da monja de se disporem ao serviço de Deus sem medo e sem preocupações, pois quando se sente a dor dos cortes, nos caminhos do amor divino, tem-se certeza absoluta de que algo melhor virá, uma vez que a planta, quando podada, toma novo vigor para dar frutos mais belos, mais abundantes e mais saborosos. Como tudo mais nos mosteiros, isso está em plena sintonia com o evangelho, onde Cristo afirma: “Eu sou a videira verdadeira e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que não dá fruto ele o corta; e todo ramo que dá fruto, ele o poda para dar mais fruto ainda” (Jo 15, 1-2).

Nossa cidade de Juiz de Fora é agraciada por ter em seu recinto urbano um destes lugares santos, recanto de paz espiritual, de estudo e vivência diuturna da Palavra de Deus, de genuína liturgia, que é o Mosteiro de Santa Cruz, da Ordem Beneditina feminina.

Na continuidade da obra santa de Madre Paula Iglésias, que conduziu o Mosteiro por 29 anos e depois de seu falecimento ocorrido no dia 23 de abril último, foi eleita nova Abadessa na pessoa de Madre Maria de Fátima, cuja bênção abacial recebeu no dia 9 de junho. Feliz coincidência fez com que esta liturgia viesse a ser celebrada na memória do Imaculado Coração de Maria, pois nada é mais belo que contemplar o coração de uma mãe, melhor ainda sentir o pulsar do coração da Mãe de Deus e nossa, da Mãe da Igreja que é perpétua inspiradora da missão das abadessas, nos cuidados maternos de suas coirmãs, no Mosteiro que Deus lhes entrega para coordenar e presidir. A palavra “abadessa” significa “mãe”, termo originário da língua hebraica. Maria, que se colocou plena e indivisivelmente à disposição do Altíssimo, é o modelo acabado para a vivência do lema abacial escolhido pela nova Abadessa: “A serviço de Deus”.

Os mosteiros, locais privilegiados de oração e silêncio, funcionam, na Igreja, como raízes da árvore e alicerce do edifício, pois, ainda que escondidos, são básicos para a vida da mística planta e para a segurança da construção eclesial.


Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

A Paz de Cristo

Antes de receber o Pão eucarístico, maior riqueza para os cristãos, eles se saúdam com um gesto de fraternidade dizendo: “A Paz de Cristo!”. De fato, a paz é um dom precioso e condição inequívoca para se entrar em plena comunhão com o Senhor. Como poderia receber em si, misticamente, a pessoa do Salvador, se não acolhesse, não perdoasse, não aceitasse, não amasse seu irmão, mesmo se este fosse seu inimigo? Ao momento da instituição da Eucaristia, às vésperas de seu sacrifício na cruz, o Mestre ensinou a seus discípulos seu único mandamento: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 13,34). Anteriormente, havia sido ainda mais explícito: “Amai os vossos inimigos, rezai pelos que vos perseguem” (Mt 5, 44).

Quando acontecem situações conflituosas, a paz fica ameaçada. Muitas pessoas se deixam levar pela tentação da vingança, e, descuidadamente, podem cair nas malhas do ódio ainda que disfarçado. É preciso atenção, pois tais atitudes são obra do maligno. Entre os Apóstolos houve também esta experiência negativa. Ao ver a absurda injustiça que os poderes públicos faziam contra Jesus, ao momento da prisão de seu Mestre, um de seus discípulos apelou para a violência. Arrancou sua espada da cintura e chegou a ferir Malco, um dos servos do Sumo Sacerdote, cortando-lhe a orelha. Cristo o repreendeu com veemência: “Embainha tua espada, pois todos os que usam da espada, pela espada morrerão” (Mt 26, 51).

O nascimento de Cristo foi anunciado pelos anjos que cantaram, e nós ainda cantamos: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra a todos os que o amam” (Lc 2,14). Também, ao final da sua missão na terra, suas palavras foram lição de paz. No alto de seus terríveis sofrimentos na cruz, reza: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem!” (Lc 23,24).

Os males atuais, como o relativismo, o individualismo e o materialismo podem comprometer a paz. Bento XVI afirmou: “Há uma ligação íntima entre a glorificação de Deus e a paz dos homens na terra... sem uma abertura ao transcendente, o homem cai como presa fácil do relativismo e, consequentemente, torna-se-lhe difícil agir de acordo com a justiça e comprometer-se pela paz” (Discurso ao Corpo Diplomático, jan. 2013).

Papa Francisco, na mensagem para o Dia Mundial da Paz do corrente ano de 2018, iniciou com os seguintes termos: “Paz a todas as pessoas da terra! A paz, que os anjos anunciaram aos pastores na Noite de Natal, é uma aspiração profunda de todas as pessoas e de todos os povos, sobretudo de quantos padecem mais duramente pela sua falta” (Mensagem 01 01 2018).

A reivindicação da justiça social é legítima, porém é necessário que seja feita nos princípios da paz, sem violência. Esta foi a característica da greve dos caminhoneiros acontecida há poucos dias. Se houve algum ato de violência não partiu dos mesmos, mas foi praticada por oportunistas que pretendem a desordem e, certamente, não creem na Palavra de Cristo.

Com Cristo Eucarístico, cuja festa nós cristãos celebramos há poucos dias, lutemos pela paz, pois ela interessa a todos.


Dom Gil Antônio Moreira

Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

Você pode dormir sossegado?

A greve dos caminhoneiros representa um grito forte da população brasileira diante desta situação insuportável na governança do país. Esse mal não é problema só do governo atual, mas vem nos atormentando há décadas sob a égide da corrupção em todos os partidos. Há impostos demais e há roubalheira desavergonhada do dinheiro que pagamos à nação. Há políticos bons e bem-intencionados, mas que se veem impotentes diante do descalabro.

Tudo isso tira o sono dos brasileiros. Ninguém sabe que medidas seriam as mais acertadas para consertar este país. As opiniões divergem e, em certos casos, são conflitivas.

De minha parte, conclamo os fiéis a não se omitirem da responsabilidade de cidadãos conscientes e participativos através dos meios pacíficos e respeitosos; nunca apelem para lutas de classe, e nunca se deixem fanatizar por ideologias e nem por partidos. Nesta hora grave, se ponham em oração cada vez mais intensa, suplicando à Trindade Santíssima luzes para que se encontre o caminho certo para a superação dos problemas. Que não haja violência nem ódio, nem fome e nem, muito menos, derramamento de sangue. A paz a todos interessa. As soluções bélicas não servem a não ser para destruir e arruinar as famílias.

Mas desejo recordar também de um problema concreto que depende da decisão de cada um e não o consideremos menos importante. É a situação de pobreza, de miséria de muitos de nossos irmãos e que precisam de imediato socorro. A fome, a doença e o frio não podem esperar.

Por causa das graves questões do país, as obras assistenciais estão sem condições de atender a seus assistidos, por falta de alimentos e outros itens indispensáveis. Por exemplo, nosso Instituto Padre João Emilio, onde a Arquidiocese de Juiz de Fora assiste a 135 crianças e suas famílias, teve que fechar suas portas por, ao menos três dias, pois não há alimentos para fornecer. Outras obras tiveram que tomar a mesma decisão. O que cada um pode fazer?

Não há como dormir sabendo que alguém está sofrendo de fome, de dor e de tantos outros problemas e, por causa dos problemas políticos, nem mesmo as instituições que os ajudam podem funcionar.

O frio chegou. Como dormir sossegado, sabendo que há gente ameaçada de doenças e até de morte nas calçadas ou em casas precárias?

Faça uma visita ao seu guarda-roupa e veja quantas peças você não usa ou usa muito pouco e que lhe seriam dispensáveis. Quantos sapatos, sandálias, chinelos, meias, blusas, agasalhos, cobertores que você poderia oferecer para os mais pobres! Há quem diga, e eu concordo, que, se você passou um ano sem usar uma peça de seu vestuário, é porque não precisa dela. Aquela peça não lhe pertence mais. Tenha consciência disso.

Você não pode dormir às soltas, se você não doar ao menos o que lhe sobra, pois alguém está sem dormir justamente porque lhe falta o necessário.

Faça uma visita à sua despensa e à sua geladeira. Talvez aí também haja coisas com que você possa saciar a fome de uma criancinha. Às vezes vejo geladeiras ajuntando tantas sobrinhas que ninguém vai comer a acabarão no lixo. Tenha o costume de dar para os pobres o que você não precisa ajuntar.

Não podemos dormir em paz se alguém está com fome, com sede, necessitado de algo.

Nem quero falar de sua conta bancária! Você saberá se ela também não lhe tira o sono perante a miséria alheia, por exemplo, de gente que no Haiti come terra, ou de pessoas que aqui comem do que tiram no lixo.

Para terminar, quero propor-lhe uma reflexão tirada da Bíblia. É da carta de São Tiago. Diz assim: “E agora, vós, os ricos, chorai e gemei por causa das desgraças que estão para cair sobre vós. Vossa riqueza está apodrecendo e vossas roupas estão carcomidas pelas traças. Vosso ouro e vossa prata estão enferrujadas e a ferrugem deles vai depor contra vós e devorará vossas carnes, como fogo!“ (Tg 5, 1-3).

Podemos dormir sossegados?

Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

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