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II Sínodo Arquidiocesano em ação

Dom-GilCom muita alegria, com muita gratidão a Deus, demos início às atividades do II Sínodo Arquidiocesano de Juiz de Fora. No último sábado, 8 de fevereiro, celebramos a I Sessão Sinodal, reunindo todo o clero, religiosos (as) e representação dos milhares de leigos e leigas de nossas paroquias, incluindo aqueles organizados em associações, movimentos e comunidades, alguns vivendo a nova realidade de consagrados no mundo. Afinal, estavam representadas todas as forças vivas de nossa Igreja Particular.

Sínodo significa “Caminhar juntos”, andar humilde e alegremente unidos, como verdadeiros irmãos. Só assim, teremos certeza da presença de Cristo em nosso meio, só assim teremos a certeza de estar na estrada certa, só assim valerá à pena trabalhar e viver pela Igreja e na Igreja. Papa Francisco, na comemoração do cinquentenário da instituição do Sínodo dos Bispos, após o Concilio Vaticano II, aos 17 de outubro de 2015, afirmou: “O caminho da sinodalidade é o caminho que Deus espera da Igreja do Terceiro Milênio”.

É mais que conhecida a expressão do Sucessor de Pedro no sentido de construir a “Igreja em saída”, dando-nos a ideia de movimento, de caminhada para dentro e para fora de si mesma. É o Espírito nos impulsionando para a missão, como temos cantado no Hino Sinodal: “Dizer sinodalidade é dizer fraternidade e comunhão; conhecer as direções que o Espírito nos dá. ”

O que nos impele a viver em sinodalidade é o próprio Cristo, centro de nossa vida comunitária e pessoal. Jesus é tudo para nós! A Igreja existe para propagar esta verdade. Sem união plena, amorosa a Ele, nada terá sentido em nossa vida arquidiocesana e em nenhuma estruturação, por mais perfeita que fosse em suas técnicas e em seus instrumentos. Jesus é o centro, é a luz, é o sentido de nossas vidas, de nossas vocações, de nossos estudos, de nossas organizações. É força em nossas angústias e segurança em nossas carências. É superação de nossas crises e vitória em nossas lutas. Ele é tudo para nós, pois é o nosso Salvador, nosso Mestre, nosso guia, condutor nos caminhos deste mundo. Ele nos ensina que a união é indispensável para que Ele ande conosco. Assim, certa vez, afirmou: “Onde dois ou mais estiverem unidos em meu nome, eu estarei no meio deles” (Mt 18,20).

Contemplando a vida de Jesus Cristo, vemos que não só olhou para os pobres, mas assumiu a vida de simplicidade semelhante à deles. Nasceu numa gruta, encarnou-se na família simples de Nazaré, e chegou a afirmar: “as raposas tem suas tocas e os pássaros tem seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8,20).

Não há santidade sem oração e sem caridade. “O caminho que leva ao céu passa no coração do irmão” afirmava um santo bispo que conheci na juventude. É por isso que, reunindo-nos na I Sessão Sinodal, nesta rampa de lançamento das atividades em todo o território arquidiocesano, quisemos trazer para os momentos iniciais os nossos irmãos pobres que vivem nas ruas. Eles são assistidos por várias entidades católicas, além de outras, mas sobretudo pela Fundação Maria Mãe, com a Obra dos Pequeninos de Jesus na qual trabalham vários irmãos, entre eles, alguns Diáconos Permanentes. Quisemos trazê-los para que eles abençoem conosco as nossas atividades, vistam a camisa de nosso Sínodo para que sua situação de miséria fique sempre diante de nós, recordando-nos outra vez a palavra de Jesus: “tudo aquilo que fizerdes ao menor dos meus irmãos, é a mim que estareis fazendo” (Mt 25, 35).

Após termos já experiência de viver em espírito sinodal, tendo celebrado o I Sínodo há dez anos, e caminhado neste espírito com nossas revisões forânicas de dois em dois anos, já familiarizados com o método, teremos agora mais facilidade de construir o nosso II Sínodo, certos de que conquistaremos progressos espirituais e pastorais em nossa Igreja Particular juiz-forana. A beleza do restauro das pinturas das paredes e do teto, das abóbadas e da cúpula de nossa Catedral que vai ficando cada vez mais linda, graças a união de todos, seja sinal visível do crescimento de nossa igreja nos sentidos acima mencionados, enchendo de beleza e entusiasmos o coração do povo de Deus em marcha.

Não nos abatamos e nem sejamos submissos aos rigores das discórdias, pois quem separa e divide é o Maligno, pai da mentira, o enganador. Nós cremos em Cristo, e por isso caminharemos em espírito de união, formando, construindo uma igreja em sinodalidade, sempre e ada vez mais missionaria.

Com estas palavras convoco a toda a nossa Arquidiocese a entrarmos de cheio nas atividades sinodais abrindo e abençoando os portões do nosso II Sínodo Arquidiocesano. Deus nos abençoe a todos, pelas Mãos de Maria Santíssima, Nossa Senhora da Igreja em Saída, e de Santo Antônio nosso Padroeiro.


Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

Passos de Nossa Caminhada Sinodal

capa sinodo

Ao dar início ao II Sínodo de nossa Arquidiocese juiz-forana, recordemos alguns acenos da caminhada de nossa Igreja Particular na última década, quando a iniciamos celebrando o I Sínodo Arquidiocesano.

A missão da Igreja, e por consequência de seus Pastores, é levar Cristo a todos e todos a Cristo. O fim de toda pastoral é fazer com que Cristo seja cada vez mais conhecido, amado, ouvido e acolhido. Ser missionário é o resultado da união pessoal e amorosa com Cristo, a plena confiança na sua palavra, atender aos seus acenos para que o mundo nele creia e todos vivam como ele ensinou. Como afirmou São João Paulo II, “toda a pastoral da Igreja é programada tendo em vista a santidade, reforçando mesmo que o papel dos bispos é este: Convidar os cristãos a serem santos, pois a santidade é a plenitude do ser humano”. (cf Novo Millenium Ineunte). Na unidade dos filhos da Igreja, caminho de santidade pastoral, está expressa a força do mandamento do Senhor: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos tenho amado. Nisto conhecerão que sois meus discípulos” (Jo. 13, 34-35).

Concretamente, tudo se realiza pelo impulso que o Senhor deu aos seus discípulos, ao momento da Ascensão: “Ide fazer discípulos entre todas as nações e batizai-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-lhes a observar tudo o que eu vos ordenei. Eis que estarei convosco até o fim dos tempos” (Mt. 28, 19-20). Como é consolador para um Pastor ouvir esta ultimíssima palavra do Senhor: estarei convosco!

Durante estes dez anos que aqui me encontro, tendo recebido esta Igreja Particular juiz-forana no dia 28 de março de 2009, pelo ato de posse canônica, nomeado que fui pelo Papa Bento XVI, aqui tenho procurado, dentro dos meus limites pessoais, envidar esforços para que ela cresça em todos os seus aspectos eclesiais, despertando o senso da unidade entre o clero, entre os leigos, entre as paróquias e entre as demais forças vivas desta grei. Todo Pastor deve mover-se interiormente pela palavra de São João Batista, o Precursor: “É preciso que ele cresça e eu diminua” (Jo 3, 30). Conforma-me também o meu lema episcopal, “Scis quia amo te” (Jo 21, 17).

Nossa primeira proposta ao clero e ao povo, naquele início de nosso ministério, foi celebrar um sínodo arquidiocesano que possibilitasse ampla revisão e nova programação da vida eclesial, com olhares voltados para o passado, para o presente e para o futuro, ouvindo a todas os grupos organizados e até mesmo pessoas individuais. A proposta foi vivamente acolhida pelo Clero e pelo povo e assim demos início ao nosso ministério, unido ao clero e imensa participação dos leigos.


Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

Lições e propósitos

A memória é uma reserva técnica e experiencial de lições consolidadas na vivência, a serem aprendidas e, muitas delas, revisitadas. Para isso, exige-se humildade, qualidade daqueles que têm alma de peregrino aprendiz, livre da habitual pretensão humana de acreditar que tudo sabe – cegueira que estreita horizontes e leva, até mesmo, à desconsideração de evidências interpelantes. E o começo de um ano novo depende da memória e de suas muitas lições para que sejam assumidos propósitos capazes de alimentar a esperança.

Nesse sentido, a mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial da Paz de 2020 apresenta importante indicação: “A nossa comunidade humana traz, na memória e na carne, os sinais das guerras e conflitos que se sucedem, com crescente capacidade destruidora, afetando especialmente os mais pobres e frágeis. Há nações inteiras que não conseguem libertar-se das cadeias de exploração e corrupção que alimentam ódios e violências. A muitos homens e mulheres, crianças e idosos, ainda hoje se nega a dignidade, a integridade física, a liberdade – incluindo a liberdade religiosa –, a solidariedade comunitária, a esperança no futuro. Inúmeras vítimas inocentes carregam sobre si o tormento da humilhação e da exclusão, do luto e da injustiça, se não mesmo os traumas resultantes da opressão sistemática contra o seu povo e os seus entes queridos”. Torna-se urgente aprender as lições que emergem desses tristes cenários, para a formulação inteligente e humanitária de soluções capazes de dar novo rumo à civilização contemporânea.

No Brasil, dolorosa memória está prestes a completar um ano: a tragédia-crime ocorrida em Brumadinho, no dia 25 de janeiro de 2019. A dor revivida grita como lição, que não pode se restringir a investimentos midiáticos para limpar a imagem enlameada dos responsáveis pela tragédia. Urgente é alcançar a sabedoria que permite reconhecer a necessidade de se viver uma ecologia integral. A partir desse reconhecimento, é possível corrigir disparates que ameaçam o Brasil e o mundo, com ações rápidas e incisivas para derrubar a idolatria do dinheiro – hoje o seu domínio é pacificamente aceito por pessoas e sociedades. Não se consegue considerar, adequadamente, a desafiadora questão antropológica que permeia diferentes dinâmicas sociais: em nome do apego ao dinheiro, que se acumula para além do necessário, tudo se justifica, até a corrupção. O que vale é ganhar sempre mais, mesmo na contramão do bem de quem é mais pobre.

É preciso, pois, reconhecer as contradições do antropocentrismo no cenário contemporâneo, que coloca a razão técnica acima da própria realidade – dilui a força experiencial alicerçada no amor, que transforma, gera esperança e cura. Apegar-se apenas à razão técnica, desconsiderando a força experiencial com fundamentos no amor, conduz pessoas ao caos, por não saberem qual o seu verdadeiro lugar. Sem se autocompreender, de modo qualificado, o ser humano entra em contradição com a sua própria realidade. Aprenda-se a lição: é um erro depositar tanta confiança apenas na dimensão racional. Deve-se ir além e, em todas as práticas cotidianas, hábitos e decisões, investir no rico horizonte da ecologia integral. O ponto de partida é admitir que ninguém, individualmente, é capaz de tudo conhecer, assumindo que se sabe menos do que se pensa saber.

A perspectiva da ecologia integral oferece novos sentidos e, assim, possibilita enfrentar adequadamente as diferentes crises que ameaçam o mundo. Oportuno é retomar o significado da ecologia, conceito que remete às relações entre todos os seres vivos no ambiente onde vivem e se desenvolvem. Entre os desafios para fortalecer a harmonia necessária à vida de todas as criaturas está a consideração do risco devastador do consumismo, incentivado por diferentes mecanismos da economia global. Esses mecanismos deturpam as culturas, como denuncia o Papa Francisco, na Carta Encíclica sobre a Casa Comum. Debilitam a imensa variedade cultural que é um tesouro da humanidade.

Quando tudo se submete ao consumo e ao dinheiro, convive-se com a indiferença diante de situações muito graves, a exemplo dos extermínios em curso – de indígenas, moradores de rua, mulheres, crianças. Extermínios até dos hábitos simples e saudáveis, a partir de uma mentalidade que alimenta outros tipos de violência. Percebe-se, assim, a necessidade do aprendizado de uma grande lição: cuidar da fragilidade que arruína o alicerce do existir humano. É bem-vindo um amor civil e político, assumido como propósito, para qualificar práticas e serviços; avançar na direção de uma nova etapa civilizatória, capaz de substituir o atual cenário, tão ferido pelas desigualdades, mentiras e hipocrisias disseminadas.

As lições são muitas e exigem humildade, para cada pessoa adotar a condição de aprendiz. E no conjunto de aprendizados necessários, merece destaque a sábia interpelação do Papa Francisco, na Exortação Apostólica Alegria do Evangelho: “A pior discriminação que sofrem os pobres é a falta de cuidado espiritual”. Seja aprendido o caminho para o cuidado espiritual, necessidade de todos, sem exceção – um rumo para lições e propósitos.


Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte
Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

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