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Abortar é um ato humano?

Enquanto corre a Copa do Mundo, atraindo os olhares e as mentes da maioria da população, assuntos polêmicos percorrem em pautas do governo. É sempre um perigo, em meio a estas ausências, haver aprovações de leis que gerariam muitas disputas entre a população.

Os cristãos, sejam católicos, evangélicos ou ortodoxos, preservam a vida e defendem a dignidade natural da pessoa humana. A Congregação para a Doutrina da Fé e Disciplina dos Sacramentos, um dos ministérios do Papa em Roma, emitiu os seguintes textos nos anos anteriores sobre o assunto. Sem dúvida, interessará a quantos desejem refletir sobre os direitos inalienáveis dos humanos.

“A vida humana deve ser respeitada e protegida, de modo absoluto, a partir do momento da concepção. Desde o primeiro momento da sua existência, devem ser reconhecidos a todo o ser humano os direitos da pessoa, entre os quais o direito inviolável de todo o ser inocente à vida. «Antes de te formar no ventre materno, Eu te escolhi: antes que saísses do seio da tua mãe, Eu te consagrei» (Jr 1, 5). «Vós conhecíeis já a minha alma e nada do meu ser Vos era oculto, quando secretamente era formado, modelado nas profundidades da terra» (Sl 139, 15)”.

“A Igreja afirmou, desde o século I, a malícia moral de todo o aborto provocado. E esta doutrina não mudou. Continua invariável. O aborto direto, isto é, querido como fim ou como meio, é gravemente contrário à lei moral: «Não matarás o embrião por meio do aborto, nem farás que morra o recém-nascido». «Deus [...], Senhor da vida, confiou aos homens, para que estes desempenhassem dum modo digno dos mesmos homens, o nobre encargo de conservar a vida. Esta deve, pois, ser salvaguardada, com extrema solicitude, desde o primeiro momento da concepção; o aborto e o infanticídio são crimes abomináveis»”.

“Desde o momento em que uma lei positiva priva determinada categoria de seres humanos da proteção que a legislação civil deve conceder-lhes, o Estado acaba por negar a igualdade de todos perante a lei. Quando o Estado não põe a sua força ao serviço dos direitos de todos os cidadãos, em particular dos mais fracos, encontram-se ameaçados os próprios fundamentos dum «Estado de direito» [...]. Como consequência do respeito e da proteção que devem ser garantidos ao nascituro, desde o momento da sua concepção, a lei deve prever sanções penais apropriadas para toda a violação deliberada dos seus direitos".

Recordemos que “o Papa João Paulo II reafirmou tal doutrina com sua autoridade de Supremo Pastor da Igreja na Encíclica Evangelium vitae: 'portanto, com a autoridade que Cristo conferiu a Pedro e a seus Sucessores, em comunhão com todos os Bispos - que em várias ocasiões condenaram o aborto e que na consulta citada anteriormente, embora dispersos pelo mundo, concordaram unanimemente sobre esta doutrina -, declaro que o aborto direto, quer dizer, querido como fim ou como meio, é sempre uma desordem moral grave, enquanto eliminação deliberada de um ser humano inocente. Esta doutrina se fundamenta na lei natural e na Palavra de Deus escrita; é transmitida pela Tradição da Igreja e ensinada pelo Magistério ordinário e universal’”.

Do mesmo modo, o documento adiciona que “em algumas situações difíceis e complexas, vale o ensino claro e preciso de João Paulo II” e cita novamente a encíclica Evangelium vitae: "é certo que em muitas ocasiões a opção do aborto tem para a mãe um caráter dramático e doloroso, assim que a decisão de desfazer do fruto da concepção não se toma por razões puramente egoístas ou de conveniência, mas sim porque se querem preservar alguns bens importantes, como a própria saúde ou um nível de vida digno para outros membros da família. Às vezes se temem pelo não-nascido tais condições de existência que fazem pensar que para ele o melhor seria não nascer. Entretanto, estas e outras razões semelhantes, até sendo graves e dramáticas, jamais podem justificar a eliminação deliberada de um ser humano inocente”.

Sem dúvida, estes textos representam séria reflexão sobre a dignidade natural da pessoa humana.


Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

Efusão de Sangue nos Primórdios da Igreja

Nos finais do mês de junho, a Igreja recorda, todos os anos, nomes importantes para a consolidação dos princípios da fé cristã, e os venera como irmãos santificados, tendo dado suas vidas, até o sangue, pela causa de Cristo.

A iniciar por dia 24, celebra São João Batista, o Precursor que preparou os caminhos do Senhor, viveu na penitência, na oração, anunciando um batismo de conversão. Foi elogiado pelo próprio Cristo nos seguintes termos: “Entre todos os nascidos de mulher não há ninguém maior do que João” (Lc 7, 28). E é destacado como superior a um profeta (cf Lc 7, 26). Morreu mártir, tendo sua cabeça cortada pelos soldados do irresponsável e corrupto Herodes (cf Mc 6, 14-29).

Dia 28, a liturgia apresenta o inolvidável Santo Irineu de Lyon. Teólogo de grande versatilidade, inconfundível na inteligência e na sabedoria, viveu no segundo século, entre os anos 130 e 202, quando foi também martirizado no tempo da perseguição de Septímio Severo (193 -211), depois de um apostolado intenso como presbítero e, posteriormente, como bispo de Lyon, hoje sul da França. Trata-se de um dos maiores intelectuais católicos de todos os tempos, tendo escrito muitas obras, entre as quais se destaca a famosa Adversus Haereses (Contra os Hereges), com a qual combate, sobretudo o gnosticismo, o montanismo, além de outras correntes heterodoxas. Membro do clero de Lyon, se destacava pela piedade e pela ciência, pelo pastoreio e pelo espírito missionário, o que lhe mereceu louvor extraordinário dado pelos seus irmãos presbíteros, em carta que escreveram ao Papa Eleutério, em 177. Foi discípulo de São Policarpo, que por sua vez tinha sido discípulo de São João Evangelista, o último Apóstolo a morrer. Por causa de suas qualidades espirituais e humanas, Irineu foi escolhido para suceder a São Potínio, também este martirizado, na sede episcopal de Lyon.

Foi importante a sua intervenção junto ao Papa Vitor I, no ano de 190, na questão da liturgia da Páscoa, quando algumas comunidades da Ásia Menor teimavam em celebrá-la em data fixa, chamados quartodecimanos, correndo o risco de excomunhão. A intercessão de Santo Irineu os livrou disso.

Martirizado, o corpo de Santo Irineu foi depositado respeitosamente na Catedral de Lyon, onde permaneceu intato até 1562, quando os huguenotes o roubaram e destruíram.

Por fim, dia 29 celebram-se as festas maiores desta ocasião médio-anual, quando os cristãos honram solenemente a São Pedro e a São Paulo, recordando os sublimes ministérios de governo e pastoreio da Igreja em todo o universo, na pessoa de Pedro e o primeiro grande missionário da fé cristã que foi Paulo. 

Ambos também foram marcados pelo derramamento de sangue, sendo Pedro crucificado e Paulo decapitado.

O sangue derramado por estes baluartes da fé no começo do cristianismo é sinal evidente da união plena com Cristo, que também deu seu sangue na cruz para a salvação de todos.

O testemunho dos santos se revelou como extraordinária fortaleza para as comunidades nascentes que iam crescendo a cada dia. Por isso, Tertuliano, outro grande teólogo dos primeiros séculos, dizia: “O sangue dos mártires é semente de novos cristãos”.

Os seguidores de Cristo hoje também são desafiados e tem crescido o número de mártires do amor de Cristo, por causa de ondas de paganismo que se propagam pelo mundo e às vezes infiltram até mesmo entre comunidades ditas cristãs

O dia de São Pedro e São Paulo, por causa de sua importância e por ser ocasião de preces especiais pelo Papa, celebra-se no domingo mais próximo, sendo no corrente ano, dia 1º de julho.

Os tempos podem ser difíceis, mas a nossa fé inabalável em Deus nos anima e nos garante que também na época atual Cristo está no meio de nós, pois afirmou: “Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28, 20).


Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

Fé na Copa do Mundo

Brasil coracao heartl A Copa Mundial de Futebol mexe com todo o globo terrestre. Do oriente ao ocidente, do norte ao sul, dos países pobres aos países ricos, negros, brancos, amarelos e vermelhos, culturas se encontram e, em geral, reina a paz.

Paro um pouco diante de atitudes religiosas dos jogadores e das torcidas. Vindos de crenças diferentes, assistimos, não raras vezes, expressões de fé e gestos de oração que aparecem nas telas da mídia. Certamente, muitas não são focalizadas e tantas são guardadas apenas no segredo da mente e no silêncio do coração. Diz o ditado: “Coração dos outros é terra a que ninguém vai”. Entre os torcedores, são muitas as expressões espirituais e há gente que até faz promessa para sua esquadra ganhar.

No dia 18, segunda-feira passada, a seleção do Panamá, que estreava no campeonato mundial, mesmo tendo sido derrotada pela Bélgica por três a zero, se ajoelha para rezar em ação de graças.

Que gesto bonito! Lembrei-me de uma frase escrita numa quadra de futsal, na cidade de Divinópolis, onde, adolescente, fazia meu curso ginasial. Estava escrito algo assim: “Mais importante que vencer é competir”. Entendi, diante do gesto eloquente do time do Panamá, que competir já é vitória, pois estar ali é sinal de que se encontra entre os melhores do mundo. E quando vi que jogaram bem, mas não conseguiram fazer nenhum gol, concluí que mais vale a vitória da honra que o sucesso nas disputas, e que mais alto que as recompensas humanas, está a fé que nos faz superar momentos de eventuais derrotas no caminhar da vida. Na verdade, muitas coisas que parecem derrota, muitas vezes vão se revelar como vitória mais à frente. Quem é cristão entenderá bem isto, pois em Cristo tal fato se evidenciou inconteste.

Naquele mesmo jogo, uma cena chamou a atenção do mundo e emocionou os que têm fé. Um jogador da Bélgica e outro do Panamá, sem nem perceber o que o outro estava fazendo, ao mesmo tempo, e muito próximos um do outro, se ajoelham para rezar. São dois países cristãos. Certamente aqueles atletas receberam educação religiosa de suas famílias, e no coração percebem, desde a infância, que Deus está e deve estar sempre em primeiro lugar em tudo. Nada pode, de fato, se antepor a Deus em nossa vida e nem em nossas competições. Fazendo o sinal da cruz, com o qual ambos se persignaram, expressam sua fé católica.

Mas vemos também expressões típicas de outras correntes cristãs, como protestantes, pentecostais, ortodoxos e não cristãos. São sinais inequívocos de que, além das disputas esportivas, além do desejo legítimo de ganhar o título e levar a taça, há no coração humano algo maior, mais importante, duradouro e invencível, que é Deus.

Reveste-se de sacralidade também o gesto de solidariedade praticado pela Islândia, que pousou com uma camisa estampada com o nome de Carl Ikene, nigeriano, goleiro da esquadra, porém que não pode ir à Copa da Rússia por causa de um câncer, contra o qual está lutando com pesados tratamentos.

São Paulo Apóstolo se serviu desta realidade para expressar sua firme convicção, ao fim do jogo da vida. Escrevendo a Timóteo, professa: “Combati o bom combate, terminei minha corrida, guardei a fé. Desde agora, me está reservada a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia, não somente a mim, mas também a todos os que tiverem esperado com amor a sua volta” (2ª. Tim 4, 7-8).

Também através das copas, Deus se manifesta carinhosamente aos seus filhos.


Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

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