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Ajuda humanitária todos podem oferecer

Diante do estado de carências de nossos irmãos que vivem na extrema pobreza no Haiti e em necessidades de várias naturezas no Norte do Brasil, propomos incrementar interajudas entre a Arquidiocese de Juiz de Fora e os referidos locais, dentro do projeto missionário que tem caracterizado nossa ação pastoral e evangelizadora.

Quanto a Óbidos, já temos excelente experiência de cerca de vinte anos, inclusa no Projeto “Igrejas–Irmãs”, à qual temos procurado ampliar e otimizar, desde 2009, quando aqui chegamos com a missão de pastorear esta igreja.

Na ocasião, a ação missionária se reduzia à presença de um sacerdote de Juiz de Fora em Óbidos, mas com excelentes trabalhos e louvável dedicação. Era Pe. José Anchieta Moura Lima, que continua atuando neste campo e em outras áreas sóciocaritativas, na sede da Arquidiocese, sendo hoje Vigário Episcopal para o Mundo da Caridade, função para a qual o nomeamos em 2011. Antes dele, o Pe. Carlos César dos Santos havia ido a Óbidos, para auxiliar na organização de ações pastorais daquela então Prelazia.

No mês de julho do corrente ano de 2017, motivados pelas catástrofes acontecidas nos últimos anos no Haiti, o país mais pobre e sofredor das três Américas, resolvemos visitá-lo com o propósito de verificar em que mais poderíamos ajudar. Seguiram comigo um casal e mais três jovens do grupo Jovens Missionários Continentais, que fundamos logo após a Jornada Mundial da Juventude de 2013, presidida pelo Papa Francisco.

Numa análise mais ampla, três razões nos levaram ao Haiti. Primeiro, porque, em 2009/2011, realizamos o Sínodo Arquidiocesano e, juntos com todos os participantes e o Clero, escolhemos para nossa Igreja local, o tema: “Arquidiocese de Juiz de Fora, uma Igreja Sempre em Missão”, e um lema: “Fazei discípulos meus!” (Mt 28, 20).

Segundo, porque queremos ouvir atentamente a Palavra do Sucessor de Pedro, o Papa Francisco, que tem incentivado, com muita determinação, a vocação missionária da comunidade eclesial, como “Igreja em saída”, com os olhos voltados, sobretudo, para as periferias.

Terceiro, porque, em 2016, iniciamos um fraterno diálogo com os Franciscanos da Providência de Deus, presentes no Haiti, aos quais enviamos algumas toneladas de alimentos e água, em novembro daquele ano, depois do furacão que causou um grande desastre naquele País, no dia 4 de outubro precedente.

Mediante as condições de carência social e, em certo sentido, religiosa e pastoral, pela falta de maior número de ministros ordenados, julgamos ser lá a periferia mais indicada para estabelecer nova base missionária “ad gentes”.

Nossa experiência no Haiti não poderia ter sido mais motivadora. Foram dias que nos deram a certeza de que ali devemos estar presentes, pois ninguém que tenha fé em Deus, siga a Cristo e ame o próximo pode ficar inerte diante de tanta pobreza e sofrimento.

Nosso grupo voltou com vontade de, se fosse possível, lá permanecer, a fim de continuar a conviver como irmãos e a servir aquela gente boa, simples e tão necessitada de tudo.

Voltando do Haiti e muito dispostos a dar continuidade aos trabalhos em Óbidos, já tão presentes em nosso coração e na vida de nossa Igreja local, após reunião de avaliação, nos propomos, com o apoio dos irmãos, a formar o Projeto “Profissionais Missionários Continentais”. Trata-se de organizar grupos de voluntários de diversas profissões que queiram, por motivo de fé ou por puro espírito humanitário, auxiliar, de alguma forma, as pessoas humanas que vivem em situação pior que a nossa.

Duas coisas nos chocaram, de forma especial, no Haiti: verificar que lá há pessoas que precisam se alimentar de terra, biscoitos de argila, para sobreviver e a extrema falta de saneamento básico, chegando a capital Porto Príncipe ter grande parte de sua população sem água encanada e sem esgoto em suas casas.

Em breve, desejamos divulgar endereços e meios para as pessoas que desejarem ajudar, poderem se inscrever, pois ajuda humanitária todos podem oferecer, uma vez que não há pessoa tão pobre que não tenha com que compartilhar e não há pessoa tão rica que não tenha o que receber.


Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano da Juiz de Fora

 

Ser religiosa (o)

vida consagrada

 

O terceiro domingo do mês vocacional, celebrado na Igreja Católica, propõe a vocação à vida consagrada. As mulheres e homens chamados para esta opção de vida são conhecidos como irmã, irmão, freira, frei, religioso, religiosa, frade. Estão agregados em várias Ordens, Congregações, Sociedades, Institutos. Residem em conventos, mosteiros, casas religiosas, casas paroquiais. Alguns, vivem uma vida contemplativa em mosteiros, a maioria não. Cada família religiosa tem o seu carisma, o seu dom que indica o rumo dos trabalhos evangelizadores: educação, saúde, migrantes, apostolado, caridade, etc. Uma análise da história universal, mesmo que superficial, não pode ser estudada e compreendida sem a presença e a atuação dos religiosos.

A vida religiosa é uma vida consagrada. A referência sempre é Cristo: o consagrado, o enviado ao mundo por Deus Pai. A consagração evidencia a doação integral de si a Deus, de serviço total a Ele e às pessoas. O sinal visível da consagração na vida religiosa é a profissão dos chamados conselhos evangélicos ou votos: pobreza, obediência e castidade.

O seguimento de Cristo é condição para cada cristão viver o batismo. A vida consagrada requer um seguimento mais radical, uma disponibilidade maior para viver o discipulado. A acolhida e a opção em viver os conselhos evangélicos orienta o seguimento. Escolher livremente o celibato por causa do Reino de Deus; a pobreza em ter os bens em comum e usá-los sobriamente e a obediência à vontade de Deus e aos projetos da família religiosa.

A vida religiosa é uma vida de comunhão. Em primeiro lugar a comunhão com Deus, fonte e origem de tudo e de todos. É a busca de Deus, é a busca do seu reino e da sua justiça, é vida de oração e contemplação, é intimidade. É comunhão com a Igreja enriquecendo-a com o carisma, participando da missão evangelizadora. A terceira forma de comunhão, é a vida fraterna entre os membros da comunidade. É unidade no mesmo espírito, o beber e o alimentar-se na mesma fonte, ter em comum a mesma inspiração da fundação. Também, requer-se uma estrutura adequada para propiciar a comunhão de vida.

A vida religiosa tem uma importância fundamental para Igreja e para a sociedade. Começando pela valorização da pessoa humana. Ajuda a recuperar a dimensão do sagrado que é indispensável para a Igreja e para sociedade. A oração de Jesus é clara: “Eu não rogo que os tires do mundo… eles não são do mundo…Assim como tu me enviaste ao mundo, eu também os enviei ao mundo” (João 17, 15-18).

A vida religiosa no mundo é um testemunho de Cristo, de Igreja e de vida fraterna. É um sinal profético num mundo fascinado pelo ter e fazer; vida consagrada valoriza o ser como dom gratuito. O modo comunitário de viver relativiza o possuir, o enriquecer, o individualismo. São um sinal profético na área ecológica. Viver com menos e com sobriedade, partilhando os bens e tê-los em comum.

A vida religiosa aponta para os valores escatológicos, aponta para aquilo que há de vir. O carisma da vida consagrada é contribuição para esta construção e caminho de prefiguração e de alcance pleno das realidades últimas e supremas: os valores da eternidade.

É necessário recordar a presença e a importância dos religiosos e religiosas no desenvolvimento religioso, cultural e econômico de nossas cidades.

 

Dom Rodolfo Luís Weber
Arcebispo de Passo Fundo

Missão Haiti (Parte 4)

missaohaiti

 

Apesar de tudo, vi muitas coisas boas no Haiti. Vi um povo amoroso com os que lhes dão atenção, muita gente trabalhadora que crê na força do bem e no poder de Deus. Vi muita expressão de fé genuína, gestos de grande amor ao próximo, de alegria no servir. Vi um edificante respeito pelas coisas sagradas, como o cuidado de vestir a melhor roupa, apresentar-se limpo, bem penteado ao ir para as celebrações, sejam na Igreja, sejam ao relento. Tal respeito se vê no silêncio dentro dos templos, na posição de veneração ao entrarem as equipes de celebração no recinto, na preparação dos cantos – às vezes a duas, três ou quatro vozes - nos instrumentos de percussão sem exageros e nem excessos, na delicadeza ao estender as mãos para receber a Sagrada Comunhão, e, por fim, nas danças inocentes após certas celebrações festivas.

Apesar de lixo e esgoto a céu aberto em muitas ruas, não vi muita gente que aparentasse descuido com a higiene do corpo. Apesar do calor de 37º, não vi nenhuma mulher com roupa muito curta, nem de shorts, nem de bermuda, nem com vestido decotado, nem com o ventre descoberto, nem descalça. Não vi nenhum homem de camiseta cavada, nem de bermuda que não fosse bem abaixo dos joelhos, ninguém fumando nas ruas. Um colega me disse que, depois de muito observar, encontrou uma ou outra pessoa que se apresentava com cigarros em público.

Vi muitas obras de caridade e de promoção humana dirigidas por religiosos vindos de várias partes do mundo, vivendo na alegria de servir, se misturando ao povo simples, vivendo com a mesma simplicidade daquela boa gente. Vi radicalidade neste particular, como os jovens da Missão Belém, brasileiros ali presentes desde o terremoto de 2010, que moram em casas semelhantes às dos pobres mais pobres, ou seja, em barracos feitos de material reciclável, cobertos de lona de plástico, dormindo no chão, usando banheiros precários. Move-os a radicalidade do evangelho, a imagem de Cristo que, um dia, disse: “As raposas têm suas tocas e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça” (Mt 8,20). Vivem o despojamento total para serem solidários em tudo ao irmão que sofre.

Vi os Frades da “Associação e Fraternidade de São Francisco na Providência de Deus” - obra brasileira nascida em São José do Rio Preto -SP em 1987 - se desdobrarem em serviços, da manhã à noite, para atender, gratuitamente, pessoas desnutridas, gestantes, gente com problemas dentários, aidéticos, doentes de todo o tipo; e faziam isto com tanta naturalidade, satisfação e espírito religioso que não pareciam estar trabalhando, mas apenas cuidando de pessoas de sua família. Vi-os rezando com muita profundidade, celebrando a Eucaristia dentro de um container transformado em capela, desfiando as contas do Rosário com grande devoção, sozinhos ou com jovens ou com o povo em geral, andando pelo pátio da Fraternidade. Vi que vivem em habitações muito simples, como a maioria do povo haitiano vive, acolhem centenas de crianças todos os dias para a nutrição de manhã e à tarde, visitam casas, ensinam como tratar a água para beber, uma vez que toda a água no Haiti é contaminada. Aqueles três franciscanos, sempre revestidos de seu hábito marrom, jovens, com formação universitária, eram para mim a realização bem-acabada da palavra de Cristo: “Tudo o que fizerdes ao menor dos meus irmãos é a mim que estareis fazendo” (Mt 25, 40).

Apesar da desolação de ver a antiga catedral em ruínas resultantes do terremoto de 2010, vi muita gente de nossa religião e de outras, orando, confiantemente, todos os dias e em todas as horas, ao redor do grande crucifixo que ficou intacto no meio de centenas de prédios que foram destruídos por aquele sismo, e vi outras pessoas, em contínua oração, diante da gruta de Nossa Senhora de Lourdes que também não sofreu danos, bem em frente ao local onde Dra. Zilda Arns faleceu.

Vi sinais de organizações não governamentais que estiveram por lá para socorrer a população após o terremoto de 2010 e depois do furacão de 4 de outubro de 2016 e que já foram embora, e outras ONGs que continuam lá dando assistência e amparo aos dizimados.

Vi uma natureza muito bonita, sobretudo nas montanhas, fazendo jus ao nome do País, pois o vocábulo “Haiti” significa, em língua indígena, “altas-montanhas”.

Vi afinal, um grande apelo de Deus em meu coração e nos olhos de todos os que comigo foram em missão, para que façamos o que pudermos, a fim de minimizar o estado de pobreza e más condições de vida dos que lá vivem, pois são nossos irmãos.

 

Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

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