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Nossa Senhora Aparecida: 300 anos!

aparecida

Foi nos meados de outubro de 1717 que três pescadores encontraram, entre suas redes, a pequena imagem negra da Beatíssima Virgem Maria, que se tornou principal ícone de devoção sempre crescente do povo brasileiro. Desde o princípio, os moradores da região costumaram referir-se a ela como Nossa Senhora da Conceição Aparecida ou simplesmente Nossa Senhora Aparecida.

Ao correr do tempo, orações, celebrações, escuta da Palavra de Deus, súplicas em situações de extrema dificuldade se repetiram, subindo a Deus como suave incenso, resultando em graças alcançadas e milagres verdadeiros. O aumento do movimento popular gerou sucessivas construções de espaços cada vez mais amplos para o povo local e peregrinos de várias partes. De uma simples sala na casa de Felipe Pedroso, da pequena capela no morro dos Coqueiros, edificações sucessivas foram surgindo até se chegar ao extraordinário Santuário Nacional, o maior do mundo construído em louvor da Virgem Maria, sagrado solenemente pelo inesquecível Papa São João Paulo II, no ano de 1980, em sua primeira viagem ao Brasil.

Ocorrendo frequentes milagres de Deus por intercessão da Virgem Mãe de Cristo, a devoção foi se tornando cada vez mais centro de piedade popular, reconhecida repetidas vezes pelas autoridades eclesiais, configurando-se como autêntico e forte elemento evangelizador e santificador.

Para isso, contribuiu a iniciativa pioneira de Dom Silvério Gomes Pimenta, o primeiro bispo negro do Brasil, Bispo e posteriormente Arcebispo de Mariana, em Minas Gerais, que em 1893 trouxe para a cidade de Juiz de Fora, hoje sede de nossa Arquidiocese, a Congregação dos Padres Redentoristas. Tal iniciativa foi secundada pelo Bispo de São Paulo, Dom Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti que, no ano seguinte, conseguiu na Baviera, a vinda de Redentoristas para a sua diocese, colocando-os em Aparecida, ampliando assim o trabalho catequético, evangelizador e missionário, além da assistência cotidiana dos Sacramentos. Concretiza-se assim o ideal do fundador, Santo Afonso Maria de Ligorio, que era de evangelizar os abandonados.

Como já referido em outro artigo de nossa autoria, não há dúvidas que o maior de todos os milagres acontecidos em Aparecida tem sido a inexplicável força deste singelo símbolo. Uma imagenzinha de 36 centímetros, de terra-cota, já considerada desprezível, atirada em dois pedaços no fundo de um rio, apanhada por humildes pescadores, vem arrastando crescentes romarias, chegando hoje a multidões incalculáveis que buscam o Senhor, na casa de Maria. A IX Romaria do Terço dos Homens, a acontecer no próximo sábado, 18 de fevereiro, já conta com inscrição de mais de 70 mil pessoas. A devoção a Maria foi sempre cristológica, sabendo-se que quem busca Maria, a busca por ser mãe de Jesus, o Divino Salvador, tendo profundo sentido bíblico.

Diz Moisés Alves dos Santos, comentarista das agendas da editora Ave Maria, falando das experiências de fé em Aparecida: A “aparição” de Maria em terras brasileiras é simples... O extraordinário é que se tornou essa experiência fundante: quantas conversões, quantas promessas, quantas curas! ... É próprio de Deus atuar a partir de uma experiência simples. Foi assim que Abraão foi chamado para ser pai de uma grande multidão, após uma simples experiência com o céu estrelado. Foi assim também que Jeremias aderiu à sua missão, após ter a visão de uma “panela fervendo”. (Agenda Ave Maria, 2017, 12 de outubro).

Podemos acrescentar à reflexão as contínuas atitudes de Jesus, que empregava elementos muito simples para suas pregações, a fim de comunicar verdades de grande profundidade. Assim foi com a semente de mostarda, com um pouco de lama feita com a sua saliva e um pouco de terra para curar o cego de nascença, e o pão, o mais comum dos alimentos, para instituir o mais sublime dos Sacramentos que é a Sagrada Eucaristia.

Os elementos materiais, tão pequenos a aparentemente insignificantes, tornam-se pela forma simbólica, a causa de coisas imensamente maiores, sobrenaturais, transformadoras, edificadoras, força e intermediação da Salvação. Só Deus pode fazer isto!

Maria, a humilde serva, jovenzinha de Nazaré, foi escolhida pela iniciativa divina para ser o canal intermediador da Salvação, sendo mãe do Filho de Deus encarnado. Sua singela súplica nas Bodas de Caná resultou no primeiro milagre de Cristo, o início de sua vida pública, segundo o evangelho de São João.

A ação de Maria, pelo divino desígnio dos mistérios de Deus, prossegue realizando a obra misericordiosa do Pai, que após 300 anos, vem atraindo e acolhendo o povo fiel do Brasil, na conta de seus filhos queridos.

Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

 

Construir pontes ou muros?

Na busca de solução de nossos problemas, somos tentados a procurar alternativas, nem sempre ideais. Muitas vezes, é difícil decidir. Os muros continuam sendo usados, tendo na história uma série de exemplares. Por motivos diversos, existem muralhas na China, o Muro das Lamentações em Jerusalém, o Muro de Berlim que ajudei a derrubar em 1990, quando habitava na Europa. Tenho comigo algumas pequenas partes do referido muro, que utilizei para fazer um crucifixo coroado com um diadema do arame farpado, pedaço que pude obter daquele enorme rolo que corria sobre a muralha para dificultar ainda mais a comunicação entre os regimes comunista, ao leste, e democracia capitalista a oeste. A razão do crucifixo foi perpetuar a memória da desilusão da história socialista ateia, ao lado de uma democracia capitalista selvagem, que constituem ameaças à liberdade e à dignidade humanas. Cristo continua padecendo a morte em pleno século XX e XXI, sofrendo na carne as opções dos homens que teimam em buscar soluções, muitas vezes equivocadas. Graças a Deus, aquele muro foi posto abaixo depois de derrotas de sistemas totalitários em várias partes do mundo.

Na verdade, as filosofias sociológicas do século XIX, com certas afirmações empolgantes, não conseguiram provar sua eficácia na prática. Contudo, a questão não está fechada. A busca de solução é um apelo constante na história humana. Os regimes políticos andam em crise por todos os lados. Lamentavelmente se apela para outros muros hoje em dia.

O Papa Francisco tem falado em pontes como instrumentos muito mais eficientes que os muros. Há poucos dias, disse: “Todos os muros caem, todos. Não nos devemos enganar. Continuemos a trabalhar para construir pontes entre os povos. Pontes que nos permitam derrubar os muros da exclusão e da exploração. Enfrentemos o terror com amor”.

Num mundo onde o fenômeno terrível de migrações em massa tem assustado a humanidade inteira, e onde a violência e o terror ameaçam a paz, é preciso uma resposta corajosa, mas que diminua as tensões e não que acirre os ânimos. Francisco lamenta-se pelo crescimento da xenofobia e da intolerância e as classifica como resultado do medo. Em sua sabedoria natural, e sua espiritualidade luminosa, ensina: “A misericórdia não é fácil. Ela requer coragem”.

Para alento de todos, recorda que Jesus nos disse: “Não tenham medo”. “A misericórdia, afirma o Papa, é muito mais eficaz que os antidepressivos, ansiolíticos, os muros, as redes, os alarmes e as armas. E é grátis. É um dom de Deus!”.

Estas palavras do Sucessor de Pedro são necessárias ao mundo de hoje. Todos as podem escutar e acolhê-las, independente de religião, de raça e de posições políticas. Elas são carregadas de sabedoria que vem do alto e podem nos conduzir a novos caminhos que nos levarão à paz.

Que vença a força da misericórdia, pois ela é o rosto de Cristo na tela da humanidade atual.

Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

 

Prender criminosos basta?

“Lembrem-se dos presos como se vocês estivessem na prisão com eles”. (Hb 13,3).

dom gil curiaDiante da dolorosa crise que se instala sobre o Sistema Carcerário Nacional, manifesto meu pesar e também reafirmo o compromisso no atendimento dos encarcerados e seus familiares de Juiz de Fora, através de nossa eficiente Pastoral Carcerária Arquidiocesana.

Cabe ao Estado o dever de propiciar o mínimo de dignidade a uma população que carece dos direitos sociais mais básicos a fim de devolver os detentos à liberdade, livres da criminalidade. Dados recentes do Ministério da Justiça mostram que a população carcerária cresceu 575% nos últimos 26 anos. O paradoxo desta política de encarceramento em massa é que os esforços governamentais, que se empenham na construção de mais presídios, sem as condições necessárias de humanização, não têm diminuído, mas aumentado a criminalidade.

O Brasil ostenta hoje o patamar de quarta maior população carcerária do mundo, atrás de EUA, China e Rússia. No entanto, entre eles é o campeão de prisões de acusados sem condenação. Na questão de superlotação, somos também um dos vencedores: temos metade das vagas para atender o número de encarcerados. Vê-se que o Sistema Prisional carece não só de novas construções, mas de uma profunda reforma estrutural.

Nas Unidades Prisionais de todo nosso País predominam a superlotação, a violação de direitos e os recorrentes casos de maus-tratos e torturas. O encarceramento em grande número nos Sistemas Prisionais não gerou melhora na Segurança Pública em nossas cidades. Pelo contrário, os índices de violências, nos últimos anos, aumentaram de maneira gigantesca, vitimando, sobretudo as pessoas pobres, negras, das periferias e de baixo nível educacional.

Fica evidente que encarcerar pura e simplesmente não é solução para pôr fim a tanta violência, pois infelizmente o Estado não tem criado estruturas que contribuam para reconstrução da vida da pessoa encarcerada e sua ressocialização. Como disse o Papa Francisco em sua visita ao México, “é um engano social acreditar que a segurança e a ordem só são alcançadas prendendo as pessoas”. Na verdade, as prisões, nos esquemas atuais, resultam quase sempre somente em dor e destruição da pessoa humana.

Enfim, é urgente construir novas estruturas que propiciem a real ressocialização para, em um futuro próximo, vivermos o tão sonhado “mundo sem prisões”, encontrando alternativas para punir os que erram e combatendo eficazmente a criminalidade e a corrupção, sem perder o foco da eliminação das causas e não só dos efeitos.

Queremos também dizer um “não” explícito a toda forma de violência praticada por facções criminosas que agem com requintes de crueldade e desrespeito à dignidade do ser humano, não colaborando com a solução do problema, mas antes o agravando. Que o Estado consiga meios para a eliminação do crime organizado e o diabólico tráfico de drogas.

O Brasil de tantas crises construídas nos últimos anos encontre em todos, governo e população, formas de reconstruir a Nação e alcance a paz!

Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

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